Texto de 22 de Outubro de 2018.
https://labs.mil.up.pt/blogs/taticadabola/2018/10/22/fc-porto-sindrome-de-2a-epoca/
FC Porto de Sérgio Conceição. O que se pode dizer? Grande primeira época onde atropelaram tudo e todos no campeonato e agora, apenas uns meses depois, parece que tem dificuldades a ganhar até às mais fracas equipas. Mas porquê? Será que houve uma queda assim tão grande na qualidade individual com as vendas? Ou será que está mais relacionado com as táticas defeituosas implementadas pelo técnico de 43 anos?
O Porto tem continuado a apostar no 4x4x2 que trouxe bons resultados na época passada com apenas algumas mudanças nos jogadores. Maxi Pereira assumiu o lugar de lateral direito depois da saída de Ricardo Pereira para o Leicester City e a nova contratação Éder Militão passou a ocupar a posição de central pela esquerda depois de Ivan Marcano ter deixado terminar o seu contrato com os dragões.
O ataque organizado do Porto consiste maioritariamente nos desequilíbrios que os extremos e laterais conseguem causar, tentando explorar situações de 2×1 ou de 2×2 contra o lateral e/ou extremo adversário. No que diz respeito a jogo pelo interior, a dependência está nos movimentos interiores de Brahimi, visto que existe sempre muita dificuldade na ligação dos dois médios centros ao dois avançados. Isto deve-se muito ao facto apenas serem dois médios, tornando assim mais difícil o preenchimento da zona interior, deixando muito espaço por explorar conjugado com a incapacidade de qualquer um dos avançados em recuar no terreno, pegar na bola e aplicar um último passe matador.
Tudo isto facilita o trabalho defensivo da equipa adversária, conseguindo esta travar a grande parte dos ataques portistas seguindo os movimentos atacantes dos dois laterais, não permitindo assim o tal 2×2 ou 2×1 nas alas conjugado com o uso de centrais fortes no ar de modo a defender o elevado número de cruzamentos feitos.
Mas nenhum destes problemas são coisa nova. A tática usada tem sido praticamente a mesma nestes 15 meses em que Sérgio Conceição tem estado no Porto. Por isso a questão é a seguinte, o que mudou realmente no Porto este ano?
Primeiro, uma clara baixa de forma de maior parte dos jogadores chave do Porto do ano passado, incluindo Brahimi, Herrera, Telles e Marega. E em segundo lugar, o efeito surpresa parece que desapareceu, como seria de esperar. O que quero dizer com isto é que as equipas adversárias conseguiram encontrar um guião de jogo para travar o jogo que, apesar de ter sido demolidor na época transata, apresenta características muito unidimensionais, quanto muito bidimensionais, génio de Brahimi e bola longa para a corrida de Marega. Quando uma equipa está tão dependente de um ou dois jogadores, é infalível que esta vá sentir dificuldades nalguma altura, mesmo que tenha o tal período de efeito surpresa.
Mas tudo isto seria de esperar com Sérgio Conceição para os mais atentos. Este, por todo o lado que andou, sempre foi um treinador de impacto, de choque imediato. Nunca durou muito tempo nos clubes que passou. E não há dúvida que o impacto que causou no FC Porto a época passada foi, não só positivo, como absolutamente necessário. Contudo, no futebol, há uma coisa que é mais importante que tudo o resto, a evolução. Não só da equipa e dos jogadores em si mas também do treinador e das ideias que este transmite. E, infelizmente para os adeptos do clube da invicta, parece que Conceição tem alguma dificuldade neste último aspeto.
Como disse anteriormente, o trabalho realizado pelo treinador português na sua primeira época foi absolutamente necessário, fazendo uma espécie de reunião das tropas e devolvendo a raça ao clube, resultando na conquista dum campeonato extremamente importante dado o seu contexto. Porém, todo este esforço era um de curto-prazo e, para se poder estar à frente dum clube da dimensão do Futebol Clube do Porto, este nunca pode ser a única via para o sucesso. De modo a que exista verdadeiro sucesso é sempre necessário que haja um plano a longo prazo. E neste tipo de plano a raça só por si não chega. É necessária mas não suficiente. A técnica e a tática tem que estar envolvidas, pelo menos muito mais do que estiveram nos primeiros 12 meses de Sérgio Conceição. É aqui que pego outra vez no ponto da evolução. Conceição tem que provar aos portistas que consegue produzir uma linha de evolução constante e não apenas um pico isolado. Vou tomar como exemplo quem neste momento é, provavelmente, o melhor treinador no mundo, Pep Guardiola. Este na sua primeira época no Manchester City sentiu imensas dificuldades no processo defensivo da sua equipa devido, maioritariamente, à falhas posicionais dos seus laterais, que, como em todas as suas equipas prévias, eram extremamente ofensivos. Contudo, como este percebeu, este estilo não iria funcionar na liga inglesa que tem características muito diferentes à alemã e espanhola. Então, na sua segunda época, este não só melhorou a qualidade dos seus laterais fazendo compras no mercado de transferências, como também, e este aspeto sendo o mais importante, adotou o defesa lateral invertido, um que não sobe tanto no terreno e que oferece maior proteção defensiva aos centrais. Como se sabe, nessa época, o City arrasou completamente com a concorrência. O quero dizer com isto é que a evolução não implica uma mudança de filosofia de jogo nem nada do género, como se vê com Guardiola que mesmo fazendo mudanças táticas manteve o mesmo estilo de posse de bola e de alta pressão que caracterizavam todas as suas equipas anteriores. O que a evolução implica é uma análise a tudo o que está ou poderá correr mal e uma correção o mais rápida possível.
Resumindo e concluindo, Sérgio Conceição foi de facto fantástico por tudo o que fez na época passada, mas, como diz no nome, esta já passou e este não pode achar a formula que utilizou na conquista do título é infalível e única porque, como também se sabe muito bem no mundo do futebol, só porque algo resultou hoje, não quer dizer que resultará amanhã.
https://labs.mil.up.pt/blogs/taticadabola/2018/10/22/fc-porto-sindrome-de-2a-epoca/
FC Porto de Sérgio Conceição. O que se pode dizer? Grande primeira época onde atropelaram tudo e todos no campeonato e agora, apenas uns meses depois, parece que tem dificuldades a ganhar até às mais fracas equipas. Mas porquê? Será que houve uma queda assim tão grande na qualidade individual com as vendas? Ou será que está mais relacionado com as táticas defeituosas implementadas pelo técnico de 43 anos?
O Porto tem continuado a apostar no 4x4x2 que trouxe bons resultados na época passada com apenas algumas mudanças nos jogadores. Maxi Pereira assumiu o lugar de lateral direito depois da saída de Ricardo Pereira para o Leicester City e a nova contratação Éder Militão passou a ocupar a posição de central pela esquerda depois de Ivan Marcano ter deixado terminar o seu contrato com os dragões.
O ataque organizado do Porto consiste maioritariamente nos desequilíbrios que os extremos e laterais conseguem causar, tentando explorar situações de 2×1 ou de 2×2 contra o lateral e/ou extremo adversário. No que diz respeito a jogo pelo interior, a dependência está nos movimentos interiores de Brahimi, visto que existe sempre muita dificuldade na ligação dos dois médios centros ao dois avançados. Isto deve-se muito ao facto apenas serem dois médios, tornando assim mais difícil o preenchimento da zona interior, deixando muito espaço por explorar conjugado com a incapacidade de qualquer um dos avançados em recuar no terreno, pegar na bola e aplicar um último passe matador.
Tudo isto facilita o trabalho defensivo da equipa adversária, conseguindo esta travar a grande parte dos ataques portistas seguindo os movimentos atacantes dos dois laterais, não permitindo assim o tal 2×2 ou 2×1 nas alas conjugado com o uso de centrais fortes no ar de modo a defender o elevado número de cruzamentos feitos.
Mas nenhum destes problemas são coisa nova. A tática usada tem sido praticamente a mesma nestes 15 meses em que Sérgio Conceição tem estado no Porto. Por isso a questão é a seguinte, o que mudou realmente no Porto este ano?
Primeiro, uma clara baixa de forma de maior parte dos jogadores chave do Porto do ano passado, incluindo Brahimi, Herrera, Telles e Marega. E em segundo lugar, o efeito surpresa parece que desapareceu, como seria de esperar. O que quero dizer com isto é que as equipas adversárias conseguiram encontrar um guião de jogo para travar o jogo que, apesar de ter sido demolidor na época transata, apresenta características muito unidimensionais, quanto muito bidimensionais, génio de Brahimi e bola longa para a corrida de Marega. Quando uma equipa está tão dependente de um ou dois jogadores, é infalível que esta vá sentir dificuldades nalguma altura, mesmo que tenha o tal período de efeito surpresa.
Mas tudo isto seria de esperar com Sérgio Conceição para os mais atentos. Este, por todo o lado que andou, sempre foi um treinador de impacto, de choque imediato. Nunca durou muito tempo nos clubes que passou. E não há dúvida que o impacto que causou no FC Porto a época passada foi, não só positivo, como absolutamente necessário. Contudo, no futebol, há uma coisa que é mais importante que tudo o resto, a evolução. Não só da equipa e dos jogadores em si mas também do treinador e das ideias que este transmite. E, infelizmente para os adeptos do clube da invicta, parece que Conceição tem alguma dificuldade neste último aspeto.
Como disse anteriormente, o trabalho realizado pelo treinador português na sua primeira época foi absolutamente necessário, fazendo uma espécie de reunião das tropas e devolvendo a raça ao clube, resultando na conquista dum campeonato extremamente importante dado o seu contexto. Porém, todo este esforço era um de curto-prazo e, para se poder estar à frente dum clube da dimensão do Futebol Clube do Porto, este nunca pode ser a única via para o sucesso. De modo a que exista verdadeiro sucesso é sempre necessário que haja um plano a longo prazo. E neste tipo de plano a raça só por si não chega. É necessária mas não suficiente. A técnica e a tática tem que estar envolvidas, pelo menos muito mais do que estiveram nos primeiros 12 meses de Sérgio Conceição. É aqui que pego outra vez no ponto da evolução. Conceição tem que provar aos portistas que consegue produzir uma linha de evolução constante e não apenas um pico isolado. Vou tomar como exemplo quem neste momento é, provavelmente, o melhor treinador no mundo, Pep Guardiola. Este na sua primeira época no Manchester City sentiu imensas dificuldades no processo defensivo da sua equipa devido, maioritariamente, à falhas posicionais dos seus laterais, que, como em todas as suas equipas prévias, eram extremamente ofensivos. Contudo, como este percebeu, este estilo não iria funcionar na liga inglesa que tem características muito diferentes à alemã e espanhola. Então, na sua segunda época, este não só melhorou a qualidade dos seus laterais fazendo compras no mercado de transferências, como também, e este aspeto sendo o mais importante, adotou o defesa lateral invertido, um que não sobe tanto no terreno e que oferece maior proteção defensiva aos centrais. Como se sabe, nessa época, o City arrasou completamente com a concorrência. O quero dizer com isto é que a evolução não implica uma mudança de filosofia de jogo nem nada do género, como se vê com Guardiola que mesmo fazendo mudanças táticas manteve o mesmo estilo de posse de bola e de alta pressão que caracterizavam todas as suas equipas anteriores. O que a evolução implica é uma análise a tudo o que está ou poderá correr mal e uma correção o mais rápida possível.
Resumindo e concluindo, Sérgio Conceição foi de facto fantástico por tudo o que fez na época passada, mas, como diz no nome, esta já passou e este não pode achar a formula que utilizou na conquista do título é infalível e única porque, como também se sabe muito bem no mundo do futebol, só porque algo resultou hoje, não quer dizer que resultará amanhã.