Esse é o enquadramento usual de certos quadrantes e movimentos políticos. Ao falar-se de colonialismo, imperialismo, escravatura... aludir a ideias de autoflagelações, culpas do homem branco, pessoalizar as consequências de grandes processos históricos... e é natural que as pessoas, ao sentirem-se individualmente interpeladas, reajam negativamente. O plano de discussão é outro.
Existe um fio temporal que se estende desde esse passado longínquo (ou melhor, de início longínquo e fim próximo) à actualidade, em que as antigas práticas de domínio foram substituídas por relações de poder também elas assimétricas, sendo que uma realidade tem directamente que ver com a outra. Não houve um qualquer tipo de reset da realidade ou um corte total com o passado no momento da emancipação nacional dos antigos territórios ocupados. A situação social, económica... de fragilidade em que as colónias se encontravam foi transportada para a nova realidade. Agravada em muitos casos por instabilidade interna, disputas de poder, guerras civis, ingerências externas... nas quais se jogaram e continuam a jogar também os interesses de potências estrangeiras e antigos ocupantes. Sobre tudo isto, não se consegue encontrar e imputar quaisquer responsabilidades aos estados? Não é às pessoas, mas sim aos estados que, por exemplo, repartiram e ocuparam o continente africano até meados do século passado. Às instituições supranacionais que impuseram reformas e políticas desajustadas a esses países, que naturalmente precisavam de financiamento após anos de subordinação económica. Parece-me demasiada água para sacudir... só mesmo com um capote gigantesco.
Parece-me também uma carga com peso suficiente para se fazer sentir sobre a consciência colectiva das nações. E um estímulo para a cooperação e a solidariedade. Não se trata de autoflagelação. As antigas colónias e territórios ocupados, que em grande parte permanecem em situação delicada, não precisam de sentimentos de culpa. Precisam de parceiros económicos, de programas de desenvolvimento, de aliados diplomáticos, de cooperação internacional... é dessa forma que as antigas nações colonizadoras e ocupantes podem auxiliar. Não só auxiliar como encontrar benefícios mútuos. A qualidade das relações entre antigas colónias e colonizadores é relevante para ambos. Os europeus poderão vir a precisar do poder político, dos produtos e mercados das antigas dependências. ... depois admiram-se que não haja uma condenação unânime da invasão da Ucrânia ou que a preferência pela parceria comercial recaí sobre a China.
Afirmar que não se deve julgar o passado pelos padrões de ética e moralidade não é um axioma. Afinal, aplicamos juízos sobre coisas que aconteceram. O próprio critério forma-se e varia na relação com o tempo e a avaliação do passado. Os países que repartiram o continente africano não sabiam que estavam a ocupar territórios, subjugar povos e explorar riqueza alheia?... Os belgas não tinham consciência das atrocidades que cometiam no Congo? Portugal não sabia que muitas outras colónias se haviam tornado independentes?... não é assim tão simples. Os movimentos de oposição à escravatura, imperialismo, colonialismo... não surgiram ontem. Além de que estamos invariavelmente a falar de padrões éticos e morais dos próprios (ex-)colonizadores e (ex-)ocupantes em relação a outras pessoas, sociedades e culturas. São outros quinhentos.