Seguramente não me prestarei a esse papel de mensurador de benefícios da escravatura para os descendentes das populações escravizadas. Creio que o colega se sentirá mais confortável nessa função.
Compreendo que o tema seja incómodo e, reagindo intuitivamente, muitos de nós sintam uma pulsão para rebater a responsabilidade dos seus países. Sobretudo quando se alude a reparações e se leva o debate para o campo da discriminação racial, cultural, civilizacional... Não o faço. Aponto relações de causa e efeito, acções passadas (e presentes) e consequências concretas; teço observações substantivas. Retirou-se riqueza aos territórios explorados e aos povos subjugados. Os centros dos impérios beneficiaram largamente de relações comerciais iníquas entre metrópoles e colónias (quando não de simples usurpação). Usou-se mão-de-obra escrava para o desenvolvimento social e económico das potências que a ela recorreram. Não adianta enfiar a cabeça na areia.
Os argumentos que se usam com frequência não chegam a todo o lado. Que outros povos tinham as mesmas práticas, que a exploração não foi apenas cometida por europeus e brancos (... e assim se inflama ainda mais um assunto que, a ser discutido, justificaria maior seriedade), que não se deve julgar a história com actuais padrões éticos e morais... tudo isso é insuficiente, e, decerto, não impede a tentativa de estabelecimento de relações de cooperação entre os antigos colonizadores ou exploradores e as antigas colónias ou explorados.
Uns males não se subtraem a nem se diluem noutros. Há várias características do imperialismo, colonialismo e da escravatura que vincam a responsabilidade desses países perante o outros: a extensão dos fenómenos, a sua duração no tempo, a sua proximidade aos dias de hoje e as marcas que deixaram nos sítios afectados e que se mantêm actuais. Não se deve atribuir culpa ao Zé e ao Manel que, coitados, nada tiveram com o assunto; mas o Zé e o Manel devem compreender que os estados que habitam beneficiaram grandemente destes processos em prejuízo de outras zonas do planeta. A alegação de que não se deve julgar o passado pela bitola ética e moral do presente (e até essa é discutível) não pode substituir um olhar sobre os fenómenos históricos e as suas consequências. De contrário estaremos a misturar alhos com bugalhos.
Os países explorados, ao conquistarem as suas independências, passaram automaticamente de antigas colónias a países do terceiro mundo. Países miseráveis, de frágeis instituições, fracas infraestruturas... necessitados de recursos para desenvolvimento. Alguns sujeitam-se a empréstimos que têm como contrapartida ondas de privatizações e a abertura dos seus mercados, quando essas economias precisavam de protecção e desenvolvimento, não de exposição global. Poder-se-á notar que existe corrupção generalizada, governações ineptas, ... e haverá também razão nisso; porém não se pode deixar de reconhecer um legado de miséria e instabilidade política (e condições propícias a esses estados). Para não falar de intervenções militares, golpes políticos e outras formas de ingerência. Parece-me pouco provável que a Líbia tente depor Macron ou um qualquer país africano conspire para derrubar um governo europeu. As independências não são um recomeçar do zero: os novos países integram-se num sistema internacional de poder e ocupam os degraus mais baixos.
Julgo não estar a argumentar nada de extraordinariamente radical. Somente que existe um contínuo histórico, beneficiados e prejudicados, não sendo desajustado falar em responsabilidade e acções para corrigir ou atenuar o prejuízo causado. Cooperação económica e social, solidariedade política, reestruturação ou perdão de dívidas... Os europeus que se ponham espertos. Quando precisarem de ir a África em busca de minério para as suas indústrias, acabarão a negociar com um chinês.
... existem milionários no basquetebol... mas que tem isso que ver com o que quer que seja? Os Estados Unidos construíram a nação sobre um genocídio e desenvolveram-na recorrendo também a milhões de escravos. Foram um sociedade segregada até muito depois da abolição da escravatura. Esse é o racismo sistémico, uma discriminação inscrita formal ou informalmente no funcionamento das próprias instituições. Agora... que o Lebron James é milionário... sim, que bom para ele. Como se compara a condição socioeconómica dos cidadãos e dos agregados familiares norte-americanos por raça? Qual é a diferença de rendimento e de riqueza entre norte-americanos negros e brancos?... como se relacionam essas diferenças com a história recente dos Estados Unidos?... não brinquemos com coisas sérias.
How Black, Hispanic, Asian, White households compare in wealth | Pew Research Center
Wealth by Race of Householder
Explained | Racial Wealth Gap | FULL EPISODE | Netflix - YouTube