Muito boa polémica essa entre a Joacine e o Daniel Oliveira.
Deve ter sido por causa do artigo de opinião abaixo, com o qual me identifico inteiramente.
É possível defender o que está certo, de uma forma errada? Nem é tanto isso, acho mesmo que enquanto incomodar os direitolas, a Joacine vai continuar nesse registo. O Daniel Oliveira acaba por ser vítima de uma bala perdida. É tipo, dano colateral.
Demasiado pessoal
Representar a identidade étnica ou de género é representar experiências de opressão que convivem, muitas vezes cumulativamente, com a desigualdade económica. Uma mulher pobre sofre uma dupla exclusão. E se for negra mais. E se for imigrante mais. Mas, porque a política simplifica e unifica, ela não pode representar, através duma sobreposição interminável de identidades cada vez mais específicas, a experiência pessoal de cada um. Identidade e biografia são coisas diferentes. É por isso que me incomoda a biografização da representação política, muito presente na atuação da nova deputada Joacine Katar Moreira. A chegada de três mulheres negras ao parlamento foi um enorme salto. Era um escândalo que só houvesse um negro na Assembleia. Ou que quase não existissem mulheres até à imposição de quotas. Ou que haja tão poucos operários. Mas ninguém espera que o metalúrgico Jerónimo queira desempenhar o papel da vítima do preconceito social (...). Espera-se que use a sua experiência para representar uma vontade política de outros (...). Joacine tem sido atacada de forma abjeta. Por ser negra e assumir que isso é relevante. E a sua gaguez foi usada como motivo de escárnio. Mas (...) ao decidir escrever um texto sobre a sua gaguez e ao desdobrar-se em declarações sobre si mesma escolheu desviar as atenções da política. Assim como tendo o seu assessor todo o direito de se vestir como entende, quando resolveu partilhar com a imprensa que até esteve para usar outra saia mais colorida, mostrou que aquele foi um gesto comunicacional, não podendo depois refugiar-se na liberdade individual para retirar aos outros o direito de o comentarem como tal. São opções com recompensa mediática mas custos políticos. (...). A conversão súbita do Livre à agenda identitária apanhou-o impreparado. Os seus protagonistas correm desembestados e sem direção política por um campo de minas. (...) Até o tempo que a gaguez precisa no regimento e a indumentária de um assessor se transformarem no que sobra do que devia ser uma luta emancipatória. Tudo demasiado pessoal.