O que mais questiono é a lógica de “valorizar as rotinas da seleção”, por várias razões.
Ninguém pede que não exista uma espinha dorsal estável durante alguns anos. Não se pode ficar 100% refém do momento de forma dos jogadores, porque isso arriscaria fazer perder identidade, continuidade, química e referências coletivas. Mas ignorar quase por completo o rendimento atual em prol dos jogadores que já estiveram mais vezes no grupo cria outro tipo de problemas: acomodações, falta de competitividade interna, ausência de consequências para maus desempenhos e uma sensação de lugar garantido independentemente do rendimento. Além disso, limita a evolução qualitativa do grupo e reduz a pressão para elevar o nível competitivo da seleção.
Outro problema dessa lógica é que ela tem sido seguida praticamente desde o início, com pequenas exceções que pareceram mais preocupadas com a óptica da coisa, quase que para se poder dizer que também foram chamados jogadores “fora da caixa”, do que com uma verdadeira aposta desportiva. Nunca houve continuidade nessas chamadas nem espaço real para esses jogadores se afirmarem.
E, ao manter esta abordagem desde o início, criou-se uma situação em que hoje existem menos alternativas credíveis do que deveria existir. Aceita-se que o Semedo continue na convocatória porque, supostamente, não há alternativas reais ou jogadores já testados em contexto competitivo de seleção. Mas isso acontece precisamente porque nunca foram dadas oportunidades consistentes, por exemplo, ao Alberto ou ao Martim. O mesmo se aplica ao Veiga que acaba por ser aceite no grupo porque nunca houve verdadeira abertura para testar outras soluções, como o Diogo Leite.
E é exatamente por nunca terem existido oportunidades reais para jogadores como o Mateus Fernandes, o Mora, o Horta, o Paulinho ou até o Fábio Vieira, que fez uma excelente temporada no Hamburgo, sendo o melhor marcador e o melhor assistente de uma equipa que criava pouco ofensivamente, que esta convocatória acaba por não gerar uma contestação ainda maior. O Martínez não deixou espaço para que a dúvida se instalasse, não permitiu o surgimento de alternativas credíveis e nunca abriu verdadeiramente a porta para que as suas escolhas iniciais pudessem ser colocadas em causa de forma de forma mais clara e objectiva.
Não é isto que espero da Seleção Nacional. Não me sinto representado. E não necessariamente pelas escolhas em si, porque essas serão sempre discutíveis, mas pelo processo, pela lógica subjacente às convocatórias e pela forma como o mérito, ou não, dos convocados tem sido encarado até aqui. Esta convocatória é apenas a confirmação de uma gestão da seleção altamente discutível.