Taticamente, a equipa tem estado quase irrepreensível. O Porto do Farioli já conseguiu controlar os adversários mais longe da baliza. Neste momento, não consegue, e não é porque as ideias dele sobre controlo tenham mudado. É porque ele, mais do que ninguém, sabe do momento físico da equipa e sabe que não pode jogar da mesma maneira que jogava em setembro - é natural; o plantel tem limitações, os titulares têm sido espremidos e as lesões só vêm agravar o problema - pelo que tem procurado formas alternativas de segurar os pontos. Se não podemos pressionar o campo todo, pelo menos vamos tentar proteger o que podemos, no contexto concreto. Não vejo grandes erros de análise do Farioli, neste prima. E tem sido coerente nas suas opções, o que me parece sensato.
Só mais uma coisa: muita gente tem a ideia que a equipa está nos limites, mas não acho isso. Acho que a equipa está a ser gerida dentro de certos limites, sim. Ou seja, temos talvez feito menos do que podemos, sobretudo do ponto de vista ofensivo. Mas acho que a gestão está a ser muito inteligente: os momentos de decisão da época ainda estão por vir. E o que estamos a fazer agora, tentando garantir pontos sem desgastar demasiado, pode ser uma vantagem decisiva mais à frente. Mas isso é a minha forma de ver as coisas, que já me cansei de ver "super-equipas" a rebentar totalmente a partir de março (JJ era especialista nisto!). A gestão que está a ser feita é inteligente e tem dado bons resultados, não fosse está infelicidade estúpida de um gajo que nem era suposto ter jogado, tínhamos uma vantagem potencialmente decisiva, mesmo tendo um plantel mais curto que os rivais.
Está tudo interligado. O Porto tem dois comportamentos bem definidos quando perde a bola: ou pressiona alto a saída do adversário, ou recua rapidamente para um bloco baixo. A intensidade que coloca nesses momentos é muito elevada, o que acaba por desgastar bastante os jogadores. A ideia é clara: manter a equipa compacta, encurtar espaços e ganhar duelos.
O problema é que esta abordagem tem consequências diretas nos momentos ofensivos.
1) Transição rápida
Como a equipa está muitas vezes muito recuada, com os extremos a ajudar bastante na defesa, torna-se difícil sair para o ataque com qualidade. Quando conseguimos sair, raramente chegamos à área com muitos jogadores. E mesmo quando lá chegamos, falhamos na definição, perdemos duelos individuais ou desperdiçamos o lance.
Neste momento, precisaríamos de jogadores com maior qualidade na tomada de decisão e mais fortes nos duelos, algo que claramente nos falta. O que se vê é uma equipa a jogar sempre em esforço máximo nestes momentos, muitas vezes algo precipitada e trapalhona, fruto do desgaste acumulado.
2) Momento ofensivo organizado
Fica a sensação de que o Porto usa estes momentos para recuperar algum fôlego, com uma circulação de bola lenta e paciente, tentando atrair o adversário. O problema é que o adversário raramente vai atrás. Pelo contrário, baixa para bloco médio ou até defensivo. No final, temos um adversário completamente reorganizado, com linhas baixas e confortáveis. A ideia pode passar por não arriscar demasiado, pausar o jogo e esperar pelo momento certo para acelerar, mas tudo parece previsível. Falta surpresa, falta criatividade e, quando surge uma oportunidade mais ofensiva, parece que a perdemos com demasiada facilidade e volta tudo à estaca zero - novamente pressão e intensidade e os jogadores a fazerem sprints para recuperar a bola.
A minha leitura é que não temos jogadores ideais nem para um modelo fortemente baseado em transições, nem totalmente ajustados ao que Farioli procura para o segundo momento ofensivo. E isto prejudica imenso a equipa do ponto de vista físico, pq n temos jogadores para executar. a totalidade da estrátegia / pano.
Porr isso considero que Farioli precisa de encontrar um ponto de equilíbrio. O comportamento da equipa tem de ser mais flexível, ajustando-se melhor aos diferentes momentos do jogo e ao que cada partida exige. Se não conseguir criar essas dinâmicas e tornar o seu modelo mais adaptável, a equipa vai continuar a sofrer no plano físico e na qualidade da definição nos momentos decisivos. O que vali inevitavelmente levar a dificuldades semelhantes ( embora diferentes ) às que sentimos contra o casa pia e contra o braga.