John Wick disse:
O sistema peer review por si só não é garantia de qualidade, muitas vezes perdem-se excelentes estudos por interesses obscuros de quem faz a revisão. É um sistema com muito mais defeitos que qualidades e é muito criticado na comunidade científica, inclusive até já se entregaram prémios nobel por estudos plagiados a partir de outros estudos que não foram revistos e aprovados.
Quanto ao estudo e ao fármaco, não foi o estudo do fármaco in vitro que foi criticado, aliás, todos os fármacos têm que passar por essa etapa. O que foi criticado foi o facto de se ter feito notícia pelo fármaco ter passado nos testes in vitro, o que não quer dizer absolutamente nada da sua eficácia no organismo humano. Pelo que vi no abstract, foi feito numa amostra sólida e estatisticamente também parece ter relevância.
Se um estudo for excelente, nunca que deixará de ser publicado. Mesmo um estudo fraco não deixa de ser publicado, mesmo com o sistema peer review, porque de certeza que os revisores irão sugerir novas ideias para que o estudo seja melhorado. Podem é não ser publicados nas revistas preferenciais dos autores, mas publicados são. Este sistema não é perfeito, mas no mundo científico, assegura a credibilidade e qualidade de um estudo. Além de que os revisores não têm acesso aos autores do artigo, assim como os autores não têm acesso aos revisores, é anónimo, pelo que os tais interesses obscuros são minimizados. Não tenho conhecimento de um movimento relevante contra este sistema. O que ouço é alguns cientistas a criticarem o facto de fazerem estas revisões sem serem pagos. Se já foram entregues prémios nobel a estudos plagiados de outros não publicados, com certeza não é por causa do sistema peer-review. Até porque, lá está, se fossem revistos muito provavelmente seriam publicados. Houve o caso de Hans Krebs, cujo artigo sobre a descoberta do ciclo de Krebs foi rejeitado pela Nature, mas porque na altura a revista tinha um elevado volume de artigos a publicar e o artigo de Krebs seria publicado com algum atraso.
Também o tom sensacionalista empregue pelos autores no artigo foi criticado. Estive a dar uma vista de olhos ao estudo e não reportam, por exemplo, em que países ocorreram as mortes. Foram incluídos doentes de 169 hospitais, de vários continentes, e sabemos que os cuidados de saúde não são iguais em todos os países, além de que um elevado número de instituições participantes pode ser volátil para o estudo.
Além disso, a média de idades do cohort é relativamente jovem, o que poderá também influenciar, sabendo que a doença é fatal principalmente para doentes idosos (aliás, a percentagem de mortes em doentes ventilados sem toma do fármaco é de 21.3%, e é de estranhar já por isto, porque esta percentagem é seguramente mais alta na globalidade da doença).
Ainda, este fármaco é metabolizado e é substrato da enzima CYP3A4 e da P-glicoproteina, respectivamente, enzimas altamente variáveis, e que podem influenciar significativamente a eficácia do fármaco; sabe-se que a a variabilidade nestas enzimas é altamente influenciada pela etnia; visto que este é um estudo multi-hospitalar em diversos países (desde Europa, América, até à Ásia), a variabilidade é enorme, e os autores não contaram com isso.
Como se pode ver, são diversas questões que podem ter um impacto real no outcome do estudo. Com isto não quero dizer que não possam ser resultados positivos, mas não são de todo para tirar grandes conclusões, muito menos para embandeirar em arco. Espero por resultado de ensaios randomizados, e aí já poderemos tirar melhores conclusões.