Caro "jornalista", Rui Santos
Li a tua carta. Duas vezes, para ter a certeza de que não estava a sonhar. E continuo sem perceber: isto é jornalismo ou um episódio de novela brasileira?
Olha, vou ser franco contigo. Este texto não é análise desportiva. É puro fanatismo disfarçado de indignação moral. E o pior é que tu sabes disso.
Foguetes de madrugada, cortinas nos balneários, ar condicionado, toalhas do guarda redes... Meu Deus, falta aqui foi acusares o Porto de ter mudado a temperatura da água dos chuveiros. Já agora, a relva estava torta? A bola estava mais cheia de um lado?
Aqui está o problema: tu não queres jornalismo sério. Queres manter o teu lugar quente na televisão. E sabes perfeitamente que textos incendiários dão audiência. Clubismo vende. Polémica fabricada dá cliques.
Mas vamos fingir por um segundo que és mesmo um jornalista preocupado com a verdade. Então responde-me: onde estavam estas cartas dramáticas quando aconteceram situações semelhantes noutros estádios? Ah, meteste lá uma notinha no fim. Assim já fica equilibrado, não é?
Não fica, não.
Essa tua nota final é apenas uma tentativa patética de te protegeres. "Olhem, eu também critiquei os outros!" Sim, em três linhas, depois de 50 parágrafos a massacrar o Porto. Muito equilibrado.
E agora vem a melhor parte: o André Villas Boas.
Coitado do homem. Está há meses no cargo e tu já queres que ele seja simultaneamente presidente, polícia, psicólogo e fiscal da ASAE. Porque aparentemente tudo o que acontece no Dragão é responsabilidade pessoal dele.
Mas quando há problemas noutros clubes? Ah, aí já é "falha do sistema", "problema estrutural", "cultura enraizada". Nunca é culpa direta do presidente.
Sabes qual é a tua verdadeira vergonha? Não são os foguetes nem as cortinas. É esta escrita viciada, esta parcialidade escancarada que tu tentas vender como jornalismo isento.
Tu não serves o futebol. Serves a tua agenda. E pior, serves o teu tacho.
Porque enquanto continuares a escrever estas peças inflamadas, enquanto continuares a alimentar guerras clubísticas, vais continuar a ser convidado para programas de televisão onde se grita muito e se diz pouco. Onde a análise séria morreu e foi substituída por soundbites e polémica fácil.
Queres saber o que realmente faz mal ao futebol português?
Não são as claques. Não são os presidentes. Não são nem os cartazes nos balneários.
É esta comunicação social corrupta de princípios, que abandonou completamente a isenção e se tornou apenas mais um ator no circo. Jornalistas que já não informam, apenas inflamam. Que já não analisam, apenas acusam. Sempre os mesmos, sempre com os mesmos alvos.
E tu sabes perfeitamente do que estou a falar.
Aquela tua indignação toda, aquele vocabulário rebuscado, "Dona Vergonha", "caixa de pó de arroz cheia de vermes", "negritude que embaraça"... Tudo muito bonito. Muito literário. Mas no fundo, no fundo mesmo, é só teatro barato.
Teatro para manter relevância. Teatro para garantir que na próxima semana és chamado outra vez ao debate das 22h, onde vais repetir exatamente as mesmas acusações, com o mesmo tom dramático, para o mesmo público que adora ver sangue.
Aqui vai uma sugestão:
Se realmente preocupas-te com o futebol português, começa por olhar para o espelho. Pergunta te se estás a contribuir para melhorar ou apenas a lucrar com o caos.
Porque textos como este não elevam o debate. Degradam-no.
E sinceramente? Devias ter vergonha. Tu sim. Não o clube que atacas com esta obsessão doentia.
Mas não vais ter, pois não? Porque isso dava menos audiência. E o tacho não se mantém sozinho.
Um adepto de futebol farto de jornalistas fanáticos.