Foi a escolha de economia que o governo de antonio costa apostou durante 8 anos. Agora não vai ser fácil recuperar.
Entrou-se na histeria que era necessário muita mão de obra não qualificada, e no final arrebentamos de vez com a habitação, a saude, e a nossa economia cresceu em setores de pouco valor acrescentado e baixa produção.
Podíamos ter seguido o caminho de alguns países de leste como a polonia.
O futuro é menos mao obra e mais automatização.
“Foi a escolha de economia que o governo de António Costa apostou durante 8 anos.”
Isto simplifica demasiado o problema. A imigração aumentou bastante, sim, mas Portugal já tinha falta estrutural de mão de obra devido ao envelhecimento populacional, emigração jovem pós-troika e baixa natalidade. Muitos setores (construção, turismo, agricultura, logística, restauração, saúde) já não conseguiam contratar suficientes trabalhadores portugueses. Não foi apenas uma “escolha ideológica”; houve também pressão demográfica e económica real.
“Entrou-se na histeria que era necessário muita mão de obra não qualificada.”
Uma parte relevante da imigração em Portugal foi qualificada ou semiqualificada: IT, engenharia, medicina, investigação, serviços empresariais, etc. Mesmo nos setores menos qualificados, o problema não era “histeria”, era falta efetiva de trabalhadores para funções que o mercado português não conseguia preencher aos salários existentes. Todos os dias se ouvem histórias de sectores com falta de mão de obra, o desemprego em Portugal é praticamente inexistente, os próprios empresários pedem ao governo excepções aos regimes de entrada de imigrantes, via verde para imigração, são necessárias mais pessoas, etc
“Arrebentamos de vez com a habitação.”
A crise da habitação não começou com a imigração nem pode ser explicada principalmente por ela. Portugal construiu pouco durante mais de uma década, teve licenciamento lento, concentração excessiva em Lisboa e Porto, crescimento do alojamento local e forte procura internacional (vistos gold, reformados estrangeiros, nómadas digitais, investimento externo, and so on and so on). A imigração aumentou a procura, claro, mas o maior problema foi uma oferta de habitação extremamente rígida.
“A saúde arrebentou.”
O SNS já tinha problemas graves antes do pico migratório: falta de médicos de família, envelhecimento da população portuguesa, burnout, saída de profissionais para o privado e para o estrangeiro. Aliás, o próprio SNS depende cada vez mais de profissionais imigrantes para funcionar. Culpar sobretudo a imigração ignora problemas estruturais acumulados durante décadas.
“A nossa economia cresceu em setores de pouco valor acrescentado e baixa produção.”
Portugal já tinha uma economia muito dependente de serviços, turismo e PME de baixa produtividade antes de António Costa. Além disso, durante estes anos também houve crescimento relevante em exportações, tecnologia, centros de serviços, startups, indústria automóvel, componentes, software e energias renováveis. O problema da produtividade portuguesa é histórico e anterior ao PS, ao PSD e até ao euro.
“Podíamos ter seguido o caminho da Polónia.”
A comparação com a Polónia é limitada. A Polónia recebeu centenas de milhares de milhões em investimento industrial e fundos europeus, tem uma escala populacional muito maior, custos energéticos e salariais historicamente diferentes, e uma posição geográfica integrada na cadeia industrial alemã. Além disso, a própria Polónia recebeu imigração massiva nos últimos anos, especialmente da Ucrânia. Não cresceu “sem imigração”. Acho que só ucranianos são cerca de milhão e meio.
“O futuro é menos mão de obra e mais automatização.”
A automatização não elimina necessidade de imigração em países envelhecidos. Japão, Coreia do Sul e Alemanha são altamente automatizados e continuam com falta de trabalhadores. Automação reduz algumas tarefas, mas saúde, construção, cuidados a idosos, logística e muitos serviços continuam intensivos em mão de obra. O mais provável com a automatização até é cortar empregos nas áreas mais qualificadas e com melhores salários (engenharia, gestão, arquitectura, marketing, compliance, contabilidade, etc), a mão de obra pura (que conserta cenas, trabalha na agricultura, serve às mesas, trata dos velhos, entrega encomendas) que concentra uma boa parte da imigração para cá, continuará a ser precisa.