Acho que o Gustavo nunca chegou a ser suspenso, mas era mais um dos ciclistas que ou ficou sem equipa, ou que ficou na lista negra, muito devido ao abalo que o ciclismo espanhol levou após a Operação Puerto.
Mas após tudo o que já se soube não dou mais para o peditório do doping...pois mesmo na Puerto pararam a investigação quando começaram a tocar em tenistas e futebolistas...mesmo o Dr. Fuentes continua sem revelar quem eram os tais outros desportistas implicados.
Lembro-me também de ouvir uma entrevista do Lance em que o gajo estava quase a dar com a boca no trombone acerca de outros companheiros do pelotão que se dopavam, mas acabou por ser interrompido pelo entrevistador...
Tinha ideia de que ele chegou a ser suspenso, pelo menos de forma provisória, mas posso estar a confundir, já lá vão uns 15/16 anos e a memória começa a misturar casos.
O doping no ciclismo é um tema incontornável, quase um fantasma que acompanha a modalidade há décadas. Existe uma perceção hoje praticamente consensual de que, em certas épocas, o recurso a substâncias era generalizado no pelotão. Por exemplo, no caso do Lance Armstrong, isso é hoje visto como parte de um sistema mais amplo, e não como um caso isolado. Havia exceções, como o Filippo Simeoni, que sempre se posicionou contra essas práticas, mas eram claramente minoria.
Um dos momentos que marcou a viragem na perceção pública foi o Tour de 2006, sobretudo a famosa etapa 17 marcada pelo ataque do Floyd Landis. Foi uma exibição quase sobre-humana, daquelas que ficam para a história, mas também levantou muitas dúvidas.
No caso do Armstrong, o que mais me custa nem é o doping em si que, como sabemos, estava longe de ser exclusivo dele, mas sim a forma como lidou com quem o confrontou. O que fez ao Greg LeMond, por exemplo, mostra um lado muito mais preocupante, uma atitude de destruir quem se atravessasse no caminho, sem olhar a meios.
Hoje, o ciclismo é provavelmente uma das modalidades com maior controlo antidoping, mais até do que o futebol ou o ténis. E isso tem um efeito curioso, como há mais controlo, também há mais casos detetados, o que mantém a modalidade constantemente sob suspeita pública.
A isso junta-se um histórico pesado, incluindo casos trágicos de mortes associadas a práticas do passado, que deixaram marcas profundas, também em Portugal, com o fim de estruturas como a Maia/Milaneza pela morte de um ciclista. Esses episódios contribuíram para que o ciclismo ficasse ainda mais associado a esse lado negro.
E depois há outro ponto que raramente se discute com profundidade, as pessoas que continuam na modalidade e que vêm dessas gerações. O caso do Joxean Matxin é paradigmático. Hoje é uma das figuras centrais da UAE, uma superestrutura moderna, altamente profissionalizada, com métodos avançados e resultados de topo. Mas o Matxin vem de um passado ligado à Saunier Duval, uma equipa que ficou marcada por vários casos de doping, nomeadamente o do Riccardo Riccò no Tour de 2008.
Isto não significa automaticamente culpa direta ou continuidade de práticas, seria simplista e talvez injusto dizer isso. Mas levanta uma questão legítima, até que ponto a cultura de uma época se dissipa realmente, ou se vai sendo transformada e adaptada ao novo contexto, mantendo algumas raízes?
O ciclismo de hoje é muito mais controlado, até mais transparente e tecnologicamente avançado. Mas também é verdade que muitas das pessoas que o lideram passaram por um período em que certas práticas eram, no mínimo, toleradas. E isso faz com que a desconfiança nunca desapareça totalmente.