Depois de ontem acho que vale a pena reconhecer firmemente o fabuloso trabalho de toda a estrutura técnica do clube, que não posso deixar de personalizar na figura do Farioli, por ser o líder. Numa época em que tanto se falou de transição, de plantel novo e de necessidade de reconstrução, começa a ser cada vez mais difícil não reconhecer o mérito do nosso treinador nesta temporada.
Se começarmos pelo quadro mais geral, o dado mais forte é simples: liderança do campeonato sem derrotas com os rivais, com uma primeira volta histórica com apenas um empate. Numa liga onde qualquer deslize pesa muito, manter este nível de consistência durante metade da época não é sorte. É trabalho estrutural. E convém lembrar que estamos a falar de uma equipa que começou a época com uma quantidade muito grande de jogadores novos e muitos deles sem qualquer histórico no clube. Conseguir resultados imediatos nesse contexto raramente acontece sem que exista uma ideia muito clara de jogo sendo que esse trabalho estrutural vê-se sobretudo numa coisa: no facto de o treinador ter conseguido implementar rapidamente um modelo e uma ideia de jogo claros. A equipa percebe o que quer fazer em campo, como quer pressionar, como quer sair a jogar e como quer atacar. Essa espinha dorsal apareceu muito cedo na época e tem sido a base dos bons resultados. Aliás, foi precisamente essa ideia clara que permitiu ganhar ontem, porque com tanta rotação as micro-parcerias desaparecem e o que sobrevive são as rotinas enquanto estrutura coletiva. Isso é normalmente o sinal mais claro de que existe um modelo bem trabalhado: quando mudam os jogadores mas o comportamento coletivo continua reconhecível.
Também merece destaque a forma como foi gerido o plantel e as contratações. Tirando o caso do Karamoh, que é um caso especial e sinceramente não deveria sequer contar para a análise às contratações, praticamente todos os reforços têm tido utilidade real na rotação da equipa. Não são apenas números no plantel mas sim peças integradas no funcionamento coletivo. Aliás, a integração desses jogadores vê-se claramente na gestão recente da equipa. Nos últimos jogos tivemos exemplos muito fortes disso:
- Em Alvalade, na meia-final da Taça, o Porto apresentou 5 reforços no onze e mais 4 a sair do banco, começando apenas com 4 “titulares habituais”, e mesmo assim fez um jogo extremamente competente no campo do adversário mais forte da época, perdendo apenas por um penalty.
- Na Luz, com 6 reforços no onze e mais 3 a sair do banco, a equipa faz uma primeira parte de domínio claro, contra um Benfica que estava obrigado a ganhar, que tinha tido mais um dia de descanso e que na jornada anterior tinha ido jogar a Barcelos enquanto o nós tínhamos ido a Alvalade.
- E depois há o jogo na Alemanha contra o Estugarda, atual 4º classificado da Bundesliga, num estádio onde, quando a equipa alemã realmente quis ganhar jogos esta época, apenas o Bayern conseguiu vencer (duas vezes). E convém não esquecer o contexto, já que começámos o jogo com 7 reforços no onze e com 8 alterações em relação à equipa que tinha jogado na Luz. Ainda assim, a equipa foi extremamente competitiva e conseguiu pontuar depois de duas deslocações internas extremamente exigentes. Isto diz muito sobre o trabalho que tem sido feito na integração dos jogadores e na forma como o modelo está assimilado por todo o plantel.
Tudo isto encaixa numa gestão muito consciente da época. Desde o início que o treinador nunca exigiu constantemente o máximo físico da equipa, mesmo em jogos onde poderia ter arriscado mais pressão ou intensidade. Houve sempre cautela na gestão da carga e isso começa agora a fazer sentido, já que chegamos a março com a sensação de que a equipa ainda tem pernas para a fase decisiva da temporada, mesmo depois de uma sequência de jogos muito pesada. Um exemplo de planeamento foi a gestão da fase de grupos da Liga Europa, com a rotação da equipa para manter o campeonato como prioridade absoluta. Mas mesmo essa gestão foi cautelosa apenas q.b. já que mesmo quando as coisas não correram perfeitamente, a equipa manteve margem para terminar nos oito primeiros, evitando o playoff de acesso aos oitavos. Isso significou dias extra de descanso e treino, algo que numa época longa pode fazer muita diferença.
Há ainda um fator importantíssimo que ajuda a contextualizar um dos principais problemas da equipa nos últimos tempos que é a disponibilidade, ou falta dela, dos pontas de lança. Durante toda a temporada, o Samu e o Luuk só estiveram disponíveis a 100% ao mesmo tempo em quatro jogos. E desde o início de fevereiro que o Farioli não tem nenhum deles disponível, tendo contado essencialmente com a terceira opção e com o Moffi, que vinha de dois meses sem treinar. Isto ajuda a explicar algo que se tem visto recentemente: mesmo conseguindo produzir ofensivamente, a equipa tem tido dificuldades na concretização. E quando passas praticamente a época toda sem pelo menos um dos teus dois melhores finalizadores, e nas últimas semanas sem os dois, é natural que esse problema se acentue. Mas mesmo com essas limitações, a equipa mantém competitividade em todas as frentes. Imaginam o que seria termos tido todas as opções disponíveis em Alvalade e na Luz. Tudo indica que teria sido extremamente benéfico.
Por isso, olhando para o quadro completo, liderança do campeonato, modelo consolidado, integração de reforços, gestão física, gestão europeia e competitividade mesmo com limitações no plantel, parece-me justo dizer que o trabalho do Farioli esta época tem sido, no mínimo, muitíssimo competente.
E talvez o mais impressionante seja que quando a época entra agora na fase decisiva, a equipa parece preparada para o que falta. Isso raramente acontece por acaso. Normalmente acontece quando a época foi preparada com critério desde o primeiro dia.
Claro que ainda há coisas a melhorar. Sobretudo ao nível do controlo dos jogos com bola e também na forma como podemos e devemos aproveitar melhor o volume ofensivo que conseguimos criar, onde deveríamos conseguir ser muito mais eficazes. São tudo aspetos que espero que venham a ser trabalhados e afinados a médio prazo mas, olhando para o quadro geral e tendo em conta o ponto de partida desta época, é difícil não sentir um enorme orgulho nesta equipa. E, acima de tudo, confiança para o que aí vem.
Seguimos.