Tens razão no 3o episódio (tb gosto muito) mas isso não salva a trilogia a meu ver.
Mas a minha questão tem a ver com facto de o herói ser uma míuda ser a razão de muita gente para odiar a última trilogia. Se fosse igualzinho com um gajo, seria fraco na mesma mas não seria tão colado ao "wokiismo"
Tens aí em cima um exemplar que na altura até chegou a criticar haver um black nas personagens principais. Na mesma saga do Chewbacca.
Nasci depois de o último filme da trilogia clássica ter saído. Logo, o primeiro SW que vi no cinema foi o Ameaça Fantasma, e era puto. Daí não achar que os filmes sejam propriamente maus, quer dizer, o Ataque dos Clones (II) para mim é o pior, pois o CGI envelheceu muito mal. Quanto ao III, já tinha idade para distinguir o bom cinema do mau e gostei imenso. Também havia gostado dos outros, mas foi com o Revenge of the Sith que vi a diferença notória de qualidade.
O meu problema não tem que ver com o facto de ser uma mulher a personagem principal. É com a questão de o realizador, produtores e screenwriters terem feito de propósito para a tornar numa personagem perfeita, com o claro objetivo de "lacrar" e fazer sinalização de virtude, arruinando a coerência de toda a saga e atraiçoando as premissas básicas da mesma.
No fundo, são três imbróglios interdependentes. Um filme progressista usa e abusa de uma boa história e respeita os factos passados para passar a sua mensagem; um filme "woke" desrespeita aqueles que são os princípios basilares para lavar a imagem de uma empresa e demonstrar ao público em geral o quão boa é.
O ponto é: a problemática não reside na qualidade, na mensagem a passar, mas sim no método utilizado para a fazer passar.
O JJ Abrams e a Kathleen Kennedy assumidamente queriam construir a Rey tal qual ela se revelou nos filmes. Para isso, fizeram o seguinte:
1. Destruíram a coerência da saga, eliminando o princípio essencial da mesma: o Anakin Skywalker foi o escolhido, conforme a profecia - através da sua redenção, trouxe o equilíbrio para o universo. Escolheu morrer por amor, sacrificou-se ao assassinar o Imperador Palpatine. A volta deste último de uma forma inexplicável até hoje, aliada à manifestação da Rey como uma espécie de nova escolhida, tornaram toda a história do Anakin inútil.
2. A Rey é uma personagem que, sem qualquer treino, consegue sempre atingir os seus objetivos e vencer os rivais mais fortes. Quantas vezes não derrotou o Kylo Ren, por exemplo? Personagem esse com anos de treino, através do mestre mais poderoso do universo, que é o Luke Skywalker.
3. A Rey revela ter poderes que nenhum outro personagem tem, nem o próprio Anakin. Como raios consegue ela curar alguém mediante a força?
4. Todos os outros personagens são apresentados como estúpidos ou incompetentes em algum momento, quais sejam o Finn, o Poe, o Luke Skywalker, a Leia, etc. A única personagem que nunca erra e que salva sempre o dia é a Rey.
5. O Luke precisa de treino do Obi Wan e do Yoda para vencer o Vader. A Rey não precisa de treino algum para vencer o Kylo Ren e só precisa de um ano de treino para vencer o Palpatine.
6. Não existe qualquer progressão na história dela. A personagem é-nos apresentada como perfeita a priori - a primeira vez que a vemos no ecrã é em tudo semelhante à última. Não possui quaisquer erros, qualquer conflito, qualquer profundidade.
7. Em suma, foi criada uma personagem perfeita justamente porque é uma mulher. A ideia sempre foi a seguinte: vamos introduzir uma personagem feminina que seja superior a todos os outros, para demonstrar que uma mulher é tão ou mais capaz que um homem. Este pensamento por si só não é erróneo, nem teria qualquer incompatibilidade noutro contexto qualquer. A razão de ordem para as críticas assenta no facto de se tratar de uma saga com décadas, com uma história longa e cheia de nuances.
8. Imaginemos agora que a Rey era uma nova personagem feminina, vinda do nada, que vai treinando e treinando até se tornar tão poderosa como a vemos no último filme. Nem sempre toma a escolha certa e tem muitas dificuldades num período inicial. No entanto, no final de tudo, consegue restabelecer o equilíbrio para o universo, de um modo que não torne a redenção do Anakin inútil. Concomitantemente, prova que as mulheres podem ser tão ou mais fortes que os homens, surgindo como uma figura de inspiração para milhões de meninas (e até para meninos) e alterando o discernimento de muitas pessoas. Isto é progressismo; o que descrevi no ponto 7 é wokismo.
Repito: o objetivo ou a qualidade é a mesma, o método é que é distinto.