Tenho lido críticas à (suposta) rotatividade de Francesco Farioli, que foi apontada por algumas pessoas como a grande causa da eliminação do FC Porto na Liga Europa, ontem, diante do Nottingham Forest. Acho-as completamente descabidas e injustas.
Primeiro que tudo, entendo a frustração de ser eliminado de uma prova europeia contra uma equipa inferior e bastante acessível a uma equipa portuguesa de topo. O FC Porto tem obrigação de, em condições normais, se superiorizar ao Forest.
No entanto, convém lembrar algumas coisas, antes de ir à (suposta) rotatividade. O FC Porto foi muito superior ao Forest no Dragão. Dominou o jogo por completo e teve cinco oportunidades claríssimas de golo contra zero dos ingleses. A exibição foi autoritária e só a falta de eficácia inviabilizou uma vitória bem tranquila. Além disso, é bom não esquecer que o golo do Forest foi digno de figurar naqueles vídeos para os apanhados da época.
No jogo de ontem, alguns ignoram completamente o facto de o FC Porto ter jogado praticamente 90 minutos em inferioridade numérica, como se fosse algo irrelevante. A expulsão de Bednarek foi negligente e ele é um dos habituais titulares. Talvez com um bocadinho mais de rotação, o FC Porto tivesse jogado o jogo todo onze contra onze.
Foi este acontecimento que inferiorizou o FC Porto, mais que qualquer troca de jogadores. Aliás, basta ver a forma impositiva como entrou no jogo, a atacar, a pressionar alto e logo com uma grande oportunidade, falhada por Moffi.
Agora, vamos à (suposta) rotatividade. Será que houve uma rotação assim tão grande? Vamos analisar.
Diogo Costa é o titular.
Face à lesão de Martim Fernandes, Alberto Costa e Zaidu foram as opções naturais hoje em dia para as laterais defensivas.
Bednarek jogou (e comprometeu a equipa). Kiwior ficou no banco, mas não se pode considerar uma grande ausência, quando o substituto é Thiago Silva. Aliás, Kiwior não entrou propriamente bem no jogo a nível defensivo, ao passo que Thiago Silva foi o melhor da defesa.
Pablo Rosário sentou o habitual titular Varela e aqui temos de considerar que, embora de perfis muito diferentes, são jogadores de um nível equivalente, de tal forma que já li de muita gente que o titular devia ser mesmo Rosário.
Gabri Veiga é o habitual titular e jogou de início.
Pietuszewski não foi inscrito na Liga Europa (erradamente), pelo que a opção por Borja Sainz foi natural.
Na ala direita, jogou William Gomes, que já foi titular várias vezes ao longo da época. Sim, Pepê poderia ter jogado a titular em qualquer dos flancos, mas não deixa de ser curioso que os mesmos que o têm criticado tanto, tenham agora clamado pela sua titularidade. Irónico...
E na posição 9, não sei se a malta já se esqueceu que os dois principais avançados do plantel estão lesionados há bastante tempo e Farioli anda a rodar duas terceiras opções. E nem Moffi nem Gul têm respondido à altura, pelo que entre um e outro a diferença não é assim tão significativa. Alguns argumentam que podia jogar Rodrigo Mora, Borja Sainz ou Pepê como um falso 9. Poder podia, mas qual seria o resultado? Ninguém sabe.
Dito isto, podemos dizer que a única opção verdadeiramente impactante onde Farioli resolveu fazer a tal rotatividade foi apostar em Fofana em detrimento do titular absoluto e incontestável Froholdt. E isto aconteceu porque, apesar da influência de Froholdt, Fofana tem estado à altura sempre que é chamado.
Mas para aqueles que consideram a (suposta) rotatividade o factor mais decisivo da derrota portista, passando por cima do facto de o FC Porto ter jogado com dez jogadores durante 90% do tempo, convém lembrar que ao intervalo Farioli lançou três habituais titulares (Kiwior, Varela e Froholdt), além de Francisco Moura. A equipa até melhorou, mas qual foi o resultado disso na prática? Nulo.
E assim se desconstrói uma narrativa algo falaciosa. A verdade é que, em toda a eliminatória, tudo o que podia correr mal, correu mesmo. Culpem o treinador italiano pela ineficácia na finalização, pelo erro colossal do Martim Fernandes, pela atitude pouco inteligente de Bednarek que deixou a equipa em posição muito difícil ou pelas bolas na trave que deviam ter ido um palmo mais abaixo.
Mas não o acusem de secundarizar a Liga Europa por conta da rotatividade. É que ela, analisando tudo a fundo, foi mínima. Diogo Costa, Alberto Costa, Bednarek, Zaidu e Gabri Veiga são titulares. Entre Kiwior e Thiago Silva, o nível não diminui. Entre Varela e Rosário, o rendimento é similar. Entre Pepê, Borja Sainz e William Gomes, a diferença de rendimento não tem sido muita. E para avançado, não havia outro comprovadamente melhor.
Arranjem uma argumentação melhorzinha.