Há um momento em que o problema deixa de ser o resultado.
E passa a ser o caminho.
O empate de hoje não me irrita pelo ponto perdido. Irrita-me porque foi igual - para pior - aos últimos jogos. Um Porto sem sal. Estático. Previsível. Sempre à espera da “estrelinha” Mesmo em superioridade numérica, sem coragem para ir buscar a vitória. E quando isto se repete, já não estamos a falar de um jogo. Estamos a falar de identidade.
Eu não gosto de apontar o dedo por impulso. Nunca gostei, por isso, raramente escrevo depois dos jogos. Mas chega a uma altura em que é impossível ignorar: este Porto é prisioneiro da sua própria ideia de jogo. E isso é responsabilidade direta do treinador.
Farioli pode ter uma boa matriz. Pode ter princípios modernos. Pode ter uma ideia estruturada. E, sinceramente, parece-me uma boa pessoa. Nada disso está em causa, e tudo é valido.
Mas há uma verdade simples no futebol, talvez a mais antiga de todas: Uma táctica, por muito boa que seja, com jogadores errados transforma-se numa má táctica.
E é exatamente isso que eu estou a ver.
Temos um avançado com características raras no futebol europeu. Potência, presença, capacidade de choque, jogo de costas. Um jogador que pede bola na área, que pede cruzamentos, que pede profundidade curta e direta.
E obrigamo-lo a vir ao meio-campo fazer de pivô móvel. A participar em ligações longas. A pedir-lhe leveza, rapidez de execução e discernimento em espaços congestionados, precisamente onde o seu perfil não é otimizado.
O resultado?
Um avançado desgastado, longe da zona onde é letal.
Uma equipa sem referência na área.
E com isso sócios emotivos a olhar para números frios, sem perceber o que está a ser queimado ali.
Ao mesmo tempo, temos alas com capacidade de ir à linha, de ganhar profundidade, de meter bolas tensas na área, para esse mesmo avançado poder fazer uso das suas capacidades naturais… mas parecem proibidos de o fazer. Tudo é interiorizado. Tudo é jogado para dentro. Tudo é previsível. E assim anulamos, ao mesmo tempo, quem cruza… e quem devia finalizar.
Isto não é culpa dos jogadores.
Isto é uma ideia que não casa com o material humano disponível.
E aqui entra a parte mais delicada, mas necessária. Se o treinador acredita tanto nesta ideia que se recusa a adaptá-la aos jogadores que tem, então precisa de ter coragem para tomar decisões duras.
Ou muda o papel do avançado. Ou muda o perfil.
Se entende que Samu não encaixa no que pretende, e todos vimos que não, então que o coloque no banco. E que aposte num avançado mais móvel, como Deniz, que entrou hoje e, mesmo sem olhar apenas para o golo, deu outra dinâmica à equipa.
E se não vê Deniz como solução inicial, existem ainda outras possibilidades dentro do plantel. William ou Pepê podem perfeitamente interpretar um 9 móvel, com Moura a aparecer como segundo avançado. São variações que exploram melhor as características disponíveis e este estilo de jogo de “beirada de prato”.
O que não pode acontecer é insistir numa fórmula que está a retirar confiança coletiva à equipa.
Pior ainda: mesmo quando estamos a perder, mesmo quando temos mais um jogador, as substituições são sempre posição por posição. Não há plano B. Não há variação estrutural. Não há risco. Não há surpresa. PUT@ QUE P@RIU é um futebol chato para C@R@LH@
No início da época, aceitava-se: equipa nova, treinador novo, rigidez para criar base.
Mas esta fase já passou. E continuar igual agora já não é construção, é teimosia!
E a teimosia, no futebol, cobra sempre juros, juros esses que, nesta fase de restruturação do clube, nós não temos como pagar.
Já tivemos a dose de estrelinhas que o futebol por vezes oferece. Um ressalto aqui. Um golo caído do céu ali. Mas a sorte não é plano estratégico.
Se formos inteligentes, ajustamos agora, enquanto ainda estamos a tempo.
Se insistirmos no mesmo, a realidade vai bater à porta. E depois não adianta procurar culpados externos.
Porque identidade portista não é só raça. É também saber ler o momento. Adaptar. Ajustar. Crescer.
E hoje, mais do que nunca, é isso que está em falta.
BOF_Abraços
Ricardo Amorim