O Mourinho geriu isto tudo à Mourinho. Com meias verdades, interesses escondidos e sempre, mas sempre, a olhar primeiro para o próprio umbigo. Desde o momento em que foi para as conferências de imprensa dizer que, por ele, assinava imediatamente um novo contrato com o Benfica sem novas exigênias, que ele sabia perfeitamente que existia a possibilidade do Real Madrid aparecer no horizonte.
É que no contexto da altura, sem Champions garantida, sem a equipa estável e sem resultados que justificassem um compromisso desses, era impossível ao Rui Costa avançar para uma renovação. Até porque, sejamos honestos, a contratação do Mourinho foi acima de tudo uma medida de auto preservação do próprio Rui Costa já que o despedimento do Lage e a posterior chegada do Mourinho cumpriram o propósito de lhe darem oxigénio, de acalmarem o ambiente que se vivia no clube na altura tendo acabado por lhe garantir a reeleição. Isto sem a opção pelo Mourinho ser uma escolha em que ele acreditava verdadeiramente em termos de ser o que era o melhor para o Benfica.
Precisamente por isso, o Mourinho nunca seria uma solução óbvia e sustentável a longo prazo. O Rui Costa sabia disso. Sabia porque é demasiado caro, porque futebolisticamente estagnou, porque com o Mourinho existe sempre a hipótese de ele abandonar o barco quando surgir algo que o favoreça mais, e também porque quanto mais tempo ele ficasse na Luz, mais o presidente iria sendo engolido mediaticamente pelo “buraco negro” que o Mourinho é.
Ao oferecer-se publicamente para renovar, o Mourinho conseguiu exatamente aquilo que queria: protegeu-se para o futuro. Porque agora, quando inevitavelmente o acusarem de nunca ter querido ficar no Benfica a médio prazo ou de ter forçado a saída, ele tem logo a defesa preparada: “Eu quis renovar, o Benfica é que não avançou”. E a verdade é que, neste momento, tendo se oferecido ao Real ou não, parece quase certo que existe uma hipótese real de ir para Madrid. E como as coisas estão o Benfica perdeu completamente a margem de manobra. Porque perante uma proposta do Real Madrid, nem o Mourinho vai dizer que não, nem o Benfica tem condições morais, aos olhos da opinião pública, para exigir que ele cumpra o contrato ou que assine uma renovação pois quando ele se mostrou disponível para prolongar o vínculo, o clube não avançou. Não vai ser agora, quando o risco de o perder é verdadeiramente real, que lhes fica bem mudar de posição.
No fim disto tudo, Mourinho sai e o Rui Costa fica outra vez apanhado com as calças na mão. É que por muito que ele também queira que o Mourinho saia, o que se vai establecer em termos de opinião pública reinante é que ele perdeu o "treinador português mais titulado de sempre". E se isso acontecer depois do Mourinho lhes garantir a Champions ainda mais mal visto vai ficar, por muito que garanta os milhões da UEFA. A grande diferença é que, desta vez, ao menos ainda vai ter tempo para começar a pré-época com um treinador novo e não repetir o caos das duas últimas temporadas. Mas vai ser obrigado a recomeçar tudo outra vez, sabendo ele e toda a gente que foi completamente comido no processo, em termos da percepção dos adeptos que é quem tem o poder de o manter, ou não no lugar, e, pior ainda para ele, sem um treinador que lhe permitia manter os holofotes longe dos erros da sua própria presidência.