Ainda ontem, mesmo antes do jogo começar, dizia a um amigo meu que não me lembro da última vez em que o favoritismo sentido antes de um jogo foi claramente demonstrado em campo. A incapacidade de nos superiorizarmos de forma concludente, com números reais, golos e um domínio transversal do jogo, mais do que um problema desta equipa, tem sido um problema recorrente nos últimos anos. Há exceções, claro, mas a norma tem sido esta: quando existe uma superioridade real, raramente ela é devidamente concretizada. Ontem foi mais do mesmo.
Ao longo desta temporada já vimos isso várias vezes, nesses “set points” que constantemente falhamos: 5LB em casa para a Liga, os dois jogos em casa frente ao Sporting, o 1-1 com o Nottingham Forest, ou até o jogo na Luz depois do 2-0 com o Sporting a ter empatado em Braga. Nestes momentos decisivos, temos demonstrado dificuldades claras em encostar verdadeiramente os adversários às cordas, em deixá-los a tremer, conscientes de que o golo é apenas uma questão de minutos.
Mesmo com a ideia de que devíamos ter feito mais, não consigo desligar tudo isto do nosso contexto, de onde estávamos no ano passado e de como hoje ainda temos características que nos limitam. Seja por ser o primeiro ano de um novo treinador e de um novo plantel, seja por termos um ataque ainda pouco experiente a este nível, ou até pelas lesões do Samu e do Luuk, há muitos fatores a considerar. Sendo realista, e o próprio Farioli já o referiu várias vezes esta época sendo que ontem voltou a dizê-lo com todas as letras: “O que me foi pedido no início do ano foi que diminuísse as distâncias competitivas para com os rivais.”, é preciso que tentemos ser objectivos e que nos consigamos focar no essencial. Com isso em mente, torna-se difícil, ao analisar esta temporada de forma mais global, de não sentir orgulho no que foi feito, assim como confiança no que ainda podemos vir a fazer, tanto no que resta desta época como nos próximos anos.
Parece-me claro que aquilo que estamos a fazer este ano, tendo em conta de onde partimos, seria perfeitamente aceitável se só acontecesse daqui a 2 ou 3 temporadas: liderar a liga nesta fase, sermos competitivos na Europa frente a equipas alemãs e inglesas e sermos eliminados apenas por um golo, eliminar um rival da Taça e cair frente ao outro, novamente pela margem mínima, além de já termos uma ideia consolidada e uma equipa claramente identificada com o que significa vestir esta camisola. Há muito trabalho pela frente, mas também já muito foi feito, com muito mérito da parte de todos, da direção aos jogadores, passando pela equipa técnica e por toda a estrutura de apoio.
Apesar de tudo isto, o jogo de ontem custou a engolir, e hoje as coisas não estão muito melhores. Por tudo o que significava, desde logo uma Taça em que eliminaríamos os dois principais rivais, quase que garantíamos mais dois trofeús, e ganhávamos o direito de começar a nova temporada mais tranquilamente, sem clássico, e, acima de tudo, de terminar esta temporada em festa no Jamor. Mas a melhor forma de deixar isso para trás é já no domingo, depois no sábado seguinte, e assim sucessivamente. Se conseguirmos conquistar o título e, depois da final da Taça para isso ficar definitivamente para trás, será mais fácil olhar para esta temporada como ela realmente merece ser vista. Reerguemo-nos e, mesmo sem sabermos exatamente o que o futuro nos reserva, não podemos deixar de sentir confiança de que quem nos lidera, tanto no campo como no camarote presidencial, sabe o que faz, identificou as lacunas que ainda demonstramos e vai fazer tudo para que, no próximo ano, as coisas corram ainda melhor.
Acho que é isso que retiro da noite de ontem, e do que temos feito esta temporada. Tem sido bom, mas conseguimos melhor.