Bruno Prata in Record.pt
Il campione annunciato
Há jornadas que contam pontos. E há jornadas que, com a subtileza de um martelo pneumático, contam histórias. A 27.ª ronda da Liga portuguesa pertence, sem grande margem para discussão — ou para esperança alheia —, à segunda categoria. Para o FC Porto, a vitória em Braga não foi apenas mais um triunfo; foi um daqueles momentos em que o campeonato parece olhar para si próprio ao espelho e murmurar, com resignação shakespeariana: “está feito”. É certo que a aritmética ainda permite ao Sporting sonhar — quatro pontos de atraso que podem manter-se se o jogo em atraso com o Tondela correr como planeado. Mas, como diria Jean-Paul Sartre, “estamos condenados a ser livres” e, neste caso, condenados também a aceitar o que os factos teimam em evidenciar: o Sporting continua livre para acreditar, mas cada vez mais prisioneiro da realidade.
O triunfo portista na Pedreira teve o condão de eliminar o último grande obstáculo do chamado 'top four'. O calendário que se segue — Famalicão, Tondela, Alverca e Santa Clara no Dragão; Estoril, Estrela da Amadora e AVS fora — não promete propriamente um golpe de teatro digno de Alfred Hitchcock. Claro, haverá sempre quem evoque o tropeção em casa do Casa Pia como prova de que o imponderável existe. Mas convém não confundir exceção com argumento.
Em Braga, o Porto repetiu o resultado da primeira volta e, de caminho, ofereceu uma pequena aula comparativa: enquanto os portistas fizeram o pleno frente aos minhotos, o Sporting ficou-se por empates em Alvalade e na Pedreira. Não é toda a explicação para a diferença pontual — mas é uma daquelas que dispensam rodapés. O jogo, em si, foi um retrato quase didático da época portista: pressão alta, intensidade sem remorsos e uma obstinação que faria corar qualquer manual de autoajuda. Nem o penálti 'burocrático' detetado por António Nobre, que colocou o Sp. Braga em vantagem, abalou a convicção azul e branca. Sem as cintilações de Rodrigo Mora, Farioli puxou do banco como quem tira cartas marcadas da manga: William trouxe dinamismo, Fofana e Pablo Rosario acrescentaram músculo e decisão. O resultado? Dois golos, uma reviravolta e a sensação de que o mercado de inverno não foi um capricho — foi um investimento com juros. E se há imagem de marca neste Porto, ela não reside apenas na sua organização quase militar — um 4x3x3 que se desdobra em 2x3x5 a atacar e 5x4x1 a defender —, mas sobretudo na forma como responde quando a exigência sobe. É uma equipa que parece prosperar no desconforto, como se tivesse feito um pacto com a adversidade.
Curiosamente, o grande arquiteto desta narrativa é também o seu protagonista mais expressivo. Farioli, entre queixas, episódios históricos reciclados e um ocasional “contra tudo e contra todos” (que alguém certamente lhe soprou ao ouvido) conseguiu algo mais relevante do que vencer conferências de imprensa: absorveu o ADN de um clube que vive da resistência e devolveu-o multiplicado ao relvado.
Mas importa dizê-lo sem rodeios: quem for verdadeiramente justo sabe que não foi a vitimização, as queixas exageradas das arbitragens e das decisões da Liga ou a agressividade verbal a ter um peso determinante na caminhada vitoriosa. Essa será sempre a indisfarçável explicação de alguns embusteiros secundários que atuam na sombra e que tentam passar essa ideia para poderem reclamar, também eles, algum mérito das conquistas. O que decidiu — e continuará a decidir — foi o futebol. Um futebol físico, intenso, metódico, sustentado por uma rotação quase industrial que faz o FC Porto parecer duas equipas numa só.
A André Villas-Boas e à SAD cabe a outra fatia do mérito: escolheram, arriscaram e, imagine-se, acertaram. Inflacionaram a folha salarial (só até dezembro, subiu de 38,2M€ para 51,2M€), reforçaram o plantel e deram ao treinador as ferramentas para transformar ideia em domínio. Uma decisão que, em certos círculos, ainda é considerada revolucionária.
Tudo isto não diminui o percurso do Sporting (designadamente na Champions). A equipa tem sido consistente, competitiva e, como se viu em Alverca, capaz de exibições iluminadas. A Rui Borges deve ser tributada a idoneidade que se reconhece aos bons treinadores: pediu mais respeito para si e para a sua equipa — e teve mais do que motivos para o fazer. O Sporting não deverá conseguir o tricampeonato, mas nem por isso deixou de fazer um belíssimo campeonato. Deverá perder apenas para quem foi excecionalmente forte. E, quando e se isso se confirmar, a melhor forma de reagir será dar os parabéns ao FC Porto. Não se exige que Frederico Varandas deixe de responder grosso a Villas-Boas quando achar conveniente, mas talvez a forma mais eficaz de continuar a marcar a diferença seja mostrar que sabe separar as águas e reconhecer que o FC Porto, desta vez, foi simplesmente mais forte e melhor.
Voltando ao essencial, há campeonatos que se discutem até ao último suspiro e outros que, a certa altura, deixam apenas de o ser. Este parece cada vez mais pertencer à segunda espécie. E, salvo reviravolta digna de argumento rejeitado por inverosímil, o campeão já não é uma incógnita — é apenas uma questão de calendário. E de linguagem adequada: Il campione annunciato.