os hipócritas que só se queixam de um caso a inventar que os outros só se queixaram de um caso...
se não fossem tão mongos percebiam que protestos contra o regime iraniano têm absolutamente 0 impacto.
protestos contra o que Israel e os EUA fazem pode ter impacto, porque a opinião publica nesses países ainda conta alguma coisa.
sim, vão haver mais protestos se for uma democracia a fazer algo do que se for um Irão ou Coreia do Norte, que novidade do crl.
não é assim tão difícil perceber porquê.
essa narrativa dos "esquerdalhos" apoiarem o Irão não tem ponta por onde se pegue.
no caso da Venezuela ainda dava para pegar em algo, na narrativa dos tankies, neste caso não há nada.
Estamos a importar guerras culturais e políticas da América do Sul para a nossa realidade. Por alguma razão o Maliano praticamente só partilha tuítes de argentinos, venezuelanos ou brasileiros.
No Brasil, por exemplo, o debate político está extremamente polarizado, praticamente reduzido a um confronto entre esquerda e direita mais radicais. Os partidos mais moderados perderam muito peso nos últimos anos, e isso faz com que temas de política externa — como a posição em relação ao Irão — se tornem altamente fracturantes. A esquerda brasileira, até pelas suas posições históricas de política externa, pelas relações económicas com o Irão e pela retórica de combate ao “imperialismo americano”, acaba por ter uma posição mais discutível ou ambígua do que a maioria dos partidos de esquerda europeus.
Na Europa, e particularmente em Portugal, a realidade é bastante diferente. A extrema-esquerda afastou-se há muito da teocracia iraniana enquanto modelo político, nem poderia ser de outra forma, porque o Irão defende o contrário exacto do que a esquerda portuguesa defende. Pode haver uma ou outra voz mais presa à lógica antiamericana, que tende a relativizar o que se passa no Irão em nome da oposição aos EUA, mas isso é claramente minoritário, mesmo dentro da própria esquerda. E depois temos o exacto oposto - a indiferença e o silêncio completo perante o regime da Arábia Saudita que tem políticas e formas de repressão muito idênticas ao Irão.
Quanto aos números de mortos no Irão, há enorme opacidade. Não dou grande credibilidade aos dados oficiais do regime, mas também é difícil validar estimativas mais elevadas. As estimativas independentes variam bastante, entre alguns milhares e valores muito superiores. Seja qual for o número exato, estamos a falar de milhares de mortos num contexto de repressão interna severa, levada a cabo por um regime que não tem apoio político formal de nenhum país ocidental.
Depois, claro, entra a comparação com outros conflitos, como Gaza, onde os governos democráticos ocidentais deram apoio direto ou mantiveram silêncio perante a dimensão da destruição e das vítimas civis (mesmo que os número de vítimas fossem iguais às do Irão, que não são, estamos a comparar um território com 2 milhões e meio de habitantes, com um país com quase 95 milhões). Essa comparação torna a discussão ainda mais emocional e polarizada e francamente não traz nada de positivo para o debate.