Difícil porque foram 3 pontos perdidos.
Difícil porque foram perdidos frende ao Casa Pia.
Difícil porque foi na jornada que antecedia um clássico com potencial decisivo.
Contudo, para mim a realidade é uma: O FC Porto não tinha nem tem plantel nem joga o suficiente para justificar uma vantagem de 7 pontos do segundo classificado e a diferença real entre o que vale uma e outra equipa não são 7 pontos. Valemos pela nossa solidez defensiva que nos permite conceder poucas oportunidades (mérito total e colossal da direção/gestão de AVB no mercado e do mister Farioli aqui, sobretudo se contrastarmos com 24/25) ao passo que ofensivamente, para ser sucinto, ficamos abaixo do exigido.
Acredito que tal acontece à conta de uma mescla entre, fundamentalmente, défice de talento em alguns casos/capacidade ; misprofiling de outros na nossa frente de ataque, essencialmente por fora, aliado a um ideal rígido de Farioli que considero ultimamente algo desligado das características do plantel que montou/tem em mãos.
O core do ideal 2-3 (laterais dentro) -2-3 é a criação de:
1) Overloads interiores para gerar espaços por fora, penetrar por fora com múltiplos invasores centrais.
2) Promover jogo combinativo no corredor central/exploração de incursões de 3o homem.
O que exige ofensivamente:
1. Extremos com capacidade para desequilibrar no 1x1 por fora com o espaço gerado pela atração dentro. Capacidade para progredir com velocidade com bola e provocar recuo da marcação a partir de terrenos mais recuados (é este o caso de o lateral dentro abrir uma linha de passe direta central->extremo baixo). Capacidade para meter bolas de qualidade na área em cruzamento (no caso dos nossos extremos, bolas aéreas de pé trocado idealmente na zona central um passo atrás da defesa quando esse espaço existe).
Enquadramento no FC Porto:
Borja Sainz - Abordagem e contratação no mercado num investimento de 13M€+2M€.
Encaixa no ponto 1? Na minha opinião, não.
Sainz, além de não ter, na minha opinião, qualidade que justifique o investimento, é um claro caso de misprofiling da estrutura de scouting/análise do FC Porto. Borja é um segundo avançado de diagonais curtas, aproveitamento dos espaços nas costas da defesa, jogador de receber em zonas próximas do golo, criar o espaço em poucos toques e definir. Tem qualidades (que, no vácuo, justifiquem investimento será outra conversa), mas não é para ser extremo aberto no FC Porto. A Sainz falta-lhe tudo o que apontei no primeiro ponto. Não dribla, não encara, não tem uma aceleração notável que promova medo e faça a marcação pensar duas vezes em abordar agressivamente, não tem velocidade de ponta, não é capaz de progredir metros com bola (jogador de ações curtas). Raramente tenta uma bola aérea e prefere entregas na relva. Tem associação, tecnicamente não compromete, tem entendimento coletivo mas na ideia de Farioli, Sainz é o último extremo que deveríamos ter procurado. O nível não chega, o perfil não encaixa... É um problema difícil, mas neste momento é ele que tem que jogar. No Verão espero que haja sentido de urgência em fazer alguma coisa aqui.
William Gomes - Contratação da direção AVB, reinado de Anselmi, 9M€.
Encaixa no ponto 1? Na minha opinião, de todos, talvez o que tenha o perfil mais adequado, não tem é nível e duvido que alguma vez o vá ter, mas houve quem na estrutura acreditasse que valia o investimento, tem 20 anos, tem que haver uma esperança de que dê um salto grande.
William encaixa mais na ideia de extremo aberto de um 2-3-2-3, tem velocidade e é relativamente explosivo, contudo tem défices técnicos, é extremamente ansioso no jogo e isso transparece nas suas ações individuais com bola. Previsível no 1x1 (para quem faz muito o mesmo movimento - no caso flexão para dentro com o pé esquerdo e procura sucesso tem que existir em primeiro lugar um mascarar muito superior da intenção que exige um outro reportório técnico - exemplo clássico no FC Porto foi James - ou uma explosão superior que garanta mais separação para definir com espaço - exemplo máximo na história do FC Porto é Hulk), mau na entrega da bola seja para combinar curto (entrega no pé errado / falha o passe) seja no cruzamento (desmedido ou no exagero da pancada na bola ou sem alma a morrer ao primeiro poste). Ninguém pede que meta estas bolas ao nível do Di María mas exige-se claramente outro nível técnico.
Pepê - Veterano no FC Porto. Encaixa no ponto 1? Na direita não, na minha opinião. Na esquerda tem mais encaixe, mas também não é o ideal.
Aqui novamente considero que tem o perfil errado. Pepê é incapaz de jogar aberto na direita, é um extremo "enganado". Os maiores desequilíbrios que Pepê é capaz de promover para além de ataques ao espaço (que faz pouco) são centrais e mais importante do que isso, a partir de posições centrais. O seu melhor é a acelerar entrelinhas, não é a acelerar por fora. O melhor papel que teorizo para ele há algum tempo é como acelerador central à Rafa 22/23 (também com uma evolução de carreira que seria similar e até com alguns dos mesmos defeitos). Na nossa ideia e estilo (posse para desencaixar, não ataque rápido) esse papel não existe e não pode jogar no corredor central. A jogar na direita, em settled play cai dentro demais sem bola e causa um desequilíbiro estrutural, uma assimetria. Propositado ou não, já conseguimos overloads centrais com 2+3+2,+1 não precisamos de um 2+3+2+2 com apenas Sainz numa largura. É contra-producente porque estamos a criar espaço que não está ocupado.
Ademais, um gravíssimo problema com Pepê que vai muito para além desta questão tendencial que creio que nos limita, é a definição miserável na 1) intenção e 2) realização. Não só decide 9 em cada 10 lances promissores de potencial ganho de vantagem de forma errática como quando a decisão não é na sua raíz "má", define tecnicamente de forma atroz. Os próprios gestos técnicos de remate, passe, cruzamento são medíocres quando comparados com o primeiro toque e drible em velocidade que tem. As bolas que mete na área raramente são ameaçadoras, sugere muitas combinações que considero em timings errados e muitas vezes com passes transviados. Na ideia de Farioli, novamente, o encaixe não é bom e é um jogador também que me parece em fim de ciclo no clube.
Pietuszewski - Investimento agora em Janeiro. 8M€+2M€.
Considero cedo demais para tecer quaisquer considerações relativamente à forma como se pode encaixar no modelo. O que me parece claro do pouco que vi é que é, como se esperava, um projeto. Não me parece de todo preparado para dar um contributo extremamente significativo neste momento e deveria ser preocupante como já começa a somar tantos minutos (sinal de que algo claramente não vai bem). Vamos ver o que sai daqui. Parece-me com um jogador com um drible algo desconectado e largo. Contra blocos baixos não me parece que vá ser uma super ajuda, pelo menos no imediato.
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2. Médios capazes de reagir e executar com qualidade sob pressão em espaços curtos. Capacidade de circular a bola com rapidez, encontrar o homem livre na passada com passes verticais incisivos. Capacidade de rotação posicional e ocupação de espaços deixados livres na busca de uma combinação que gere vantagem. E finalmente, como em qualquer modelo, elusividade, criatividade e arte para meter últimas bolas com qualidade nos espaços que aparecem invadidos nas costas/entre a defesa.
Enquadramento no FC Porto:
Alan Varela - Herdado da direção anterior.
Encaixa no ponto 2? Na minha opinião, não. Considero que Varela tem qualidades com bola descoberta mas funciona mal a ter que executar sob pressão ou em espaços curtos. Não é um problema de origem técnica mas de origem 1) tendencial, da essência do jogador e 2) de velocidade de identificação/reação. Varela é conservador com bola. Muitas vezes identifica linhas de passe para progressão e opta pelo passe conservador, pelo risco zero. Toda a progressão no campo tem risco, sobretudo na zona dele, daí que de um 6 exige-se uma capacidade muito grande de pesar na balança o espaço/tempo/risco em frações de segundo. Às vezes é SÓ isso que separa 6 medianos de bons 6, de 6 de elite. Essa fração de segundo e essa destreza de julgamento. Varela não a tem. Não pensa rápido o suficiente para estar no coração de um modelo de posse que chama a pressão e pede altas concentrações de jogadores no espaço central. O problema dele, no meu entendimento, é muito esse. Depois, existe a inclinação natural do jogador para um comportamento mais passivo e isso nota-se até na orientação dos apoios quando procura receber por detrás dos primeiros homens na pressão.
Rosário - Contratação AVB/Farioli no Verão. 3.7M€ + 0.5M€. A pechincha do mercado.
Encaixa no ponto 2? Na minha opinião, em grande parte sim. Rosário procura executar rápido e ser progressivo. É tendencialmente muito mais proativo tanto no posicionamento como nas ações que procura fazer desenrolar. Tecnicamente não é um jogador de altíssimo nível, nem do nível de Varela na minha opinião. A grande diferença é a mentalidade/disposição para progredir e a visão/rapidez de execução ao fazê-lo. Rosário pensa rápido, entende que a bola tem que circular rápido, sempre com olho para o passe por dentro do bloco adversário, mete passes diretos, tensos e com medida, protege bem a bola, progride muito bem com ela quando a situação de jogo o propõe (Varela, por exemplo, é muito menor ameaça aí) e noto que tenta acionar muito mais vezes os laterais em progressões interiores (mesmo com passes laterais mas propícios ao avanço do jogador) do que Varela que entrega muito mais no pé atrasado.
Froholdt - Contratação AVB no Verão. 20M€ + 2M€.
Encaixa no ponto 2? 50/50. O Victor foi uma grande contratação e é um valor seguro mas é debatível que o modelo e ideal de Farioli tire dele o que de melhor tem e se no sentido oposto, Farioli tira do modelo e ideia o que ela de melhor tem com Froholdt. Ofensivamente o Victor é um médio de transporte e progressão. Médio de roturas, de ataque aos espaços. Não é um médio de toque, na sua génese talhado para um trabalho na cabine telefónica nestes jogos marca Liga Portugal. Neste sentido o encaixe não é o melhor para ele mas a capacidade que tem de acelerar com bola e sobretudo sem ela para aparecer nos espaços vagos é interessante no nosso modelo. Quando é ele o terceiro homem que se solta e recebe de frente com vantagem o FC Porto progride no campo carregado por ele. Contudo tenho que dizer que acho que está muito preso pelo modelo, muito condicionado porque o primeiro toque/orientação/passe não são os melhores e com dificuldade em soltar-se num espaço tão densamente populado. Aqui não ajuda nada que Pepê arraste muitas vezes mais um homem para um espaço central.
Gabri Veiga - Contratação AVB ainda no reinado Anselmi. 15M€ + 4M€.
Encaixa no ponto 2? Na minha opinião sim. E vou dizer que sim porque conheço muito bem o Gabri dos tempos de Vigo e sei que o perfil encaixa. Contudo, para ser honesto, não me tem impressionado de todo com a nossa camisola. Gabri é um jogador de toque, combinação, tecnicamente evoluído e com grande aptência para aparecer em zonas de finalização. O que vejo nele aqui ultimamente é muito um desligar comportamental no ataque. Um corpo que está presente mas que muitas vezes não está verdadeiramente ali. Gabri Veiga/quem assume aquela função é preponderante para o processo ofensivo da equipa porque é o elemento mais nuclear de ligação com o ataque em diálogo com Samu. É o maior produtor de últimas bolas com liberdade entrelinhas e panorâmica para o campo todo para definir passes de rotura/combinações nas imediações da zona 14 para invadir a última linha. Continuo a acreditar nele embora tenha sido o primeiro a dizer que duvidava muito da sua condição/disposição/nível pós-Arábia porque sei o que pode dar, já o testemunhei muitas vezes. E dá para entender perda de rotação e ritmo. Agora, definir como anda a definir, de maneira diria eu quase divorciada, desconcentrada, displicente não é do jogador que sabemos que ele pode ser. Tem que aportar muito mais à equipa fora da bola parada. Muito mais.
Rodrigo Mora - Formação.
Encaixa no ponto 2? Na minha opinião sim, mas tem que evoluir em alguns aspetos.
Mora tem atributos que nenhum dos médios do plantel têm. Farioli vê-o como um médio mais ofensivo no seu modelo e dentro desse papel Mora é o jogador mais talhado para invadir espaços interiores próximos da baliza contrária com bola. O controlo curto, a arte na proteção da bola e no encontrar de brechas na defesa que tem é valioso mas tem que ser suportado por um papel muito mais participativo mais baixo no terreno. Aqui vêm à superfície as suas debilidades atléticas numa zona que pede que consiga aguentar melhor os contactos sem perder bola/cair em falta, passes mais precisos (crescer aqui) e cabeça constantemente levantada. Mora olha ainda muito para o chão e menos para o que o rodeia o que produz momentos em que se agarra demasiado ao esférico, não vê runners no espaço, perde timings, falha passes. O jogo de combinações, inclusive com Samu, necessário para desatar o nó central exige contacto, capacidade para acelerar para fugir à marcação, alta rotação e cultura posicional. Mora ainda tem limitações do ponto de vista físico que o impedem de dar o melhor contributo aí mas não tenho dúvidas do perfil e se a ideia é trabalhá-lo para esta função, deve evoluir.
Seko Fofana - Empréstimo em Janeiro.
Penso que sobretudo vem dar cobertura a Froholdt, é um perfil semelhante em termos de capacidade para progredir com bola mas é tecnicamente mais capaz de dar funcionalidade ao meio-campo do ponto de vista de uma circulação mais eficiente, com capacidade também para aparecer em terrenos avançados. Vamos ver em que forma nos chega. Impossível dizer ao certo que papel e encaixe pode/vai ter no FC Porto.
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3. Se a ideia é tê-los por dentro do terreno, sobretudo numa primeira fase, o modelo exigirá sempre laterais extremamente competentes com bola, capazes de receber e soltar ao primeiro toque com ambos os pés, à vontade técnico para promover saídas de bola em passe e drible para múltiplos ângulos (fundamentais na ligação direta com Samu, com os interiores, no ocupar do terreno de forma inteligente com os apoios direcionados para poder executar uma ação de passe/aceleração em drible para meter a bola no 6 por trás dos primeiros homens da pressão). Capacidade para oferecer soluções a invadir o meio-campo com bola e fazer saltar a pressão, operar sobretudo underlaps aos extremos abertos e engrenar com o extremo e médio respetivo o funcionamento dos triângulos externos para gerar combinações/desequilíbrios/desmarcações.
Enquadramento no FC Porto:
Francisco Moura - Contratação AVB era Vítor Bruno. 5M€.
Encaixa no ponto 3? Na minha opinião não. Moura é um lateral competente mas a funcionar de forma clássica, na linha. Invertê-lo à custa do modelo é, para mim, um completo contra-senso. Moura não deve usar o pé direito nem para subir para o autocarro. Pelo menos no futebol, não existe para ele. Lateral maioritariamente de linha, combinar e acelerar para o cruzamento na linha de fundo (do lado contrário da bola invade muito bem o espaço vazio nas costas da defesa, tem bons instintos). Tê-lo enquanto acesso de circulação metido dentro é expôr as suas maiores limitações e limitar o próprio modelo. Na sua incapacidade total de usar o pé direito, Moura fecha mais de metade das soluções/ângulos de passe que podiam/deviam ser explorados e limita a nossa saída de bola. Necessita de um ou dois toques a mais para ajustar a bola para o pé esquerdo e rodar o corpo e nesse tempo o espaço fecha-se e fica inacessível.
Alberto Costa - Contratação AVB/Farioli. Troca com João Mário + 3M€.
Encaixa no ponto 3? Na minha opinião não. Mais um exemplo de lateral que se limita a ele mesmo e ao modelo ao meter-se constantemente por dentro. O Alberto Costa tem muitas qualidades que podem fazer dele um excelente lateral no ataque e acho que poucas delas estão ao serviço do atual FC Porto. Costa é um lateral de galgar metros por fora, de se projetar no ataque e surgir no último terço em velocidade para ganhar a linha de fundo, no FC Porto aparece através do corredor centro-direita.
Não me parece, novamente, o perfil ideal para executar o que Farioli pretende nem tem precisão técnica para somar por ali.
Martim Fernandes - Formação
Encaixa no ponto 3? Na minha opinião sim. Martim está confortável em zonas interiores e isso nota-se nas suas ações, tem qualidade técnica para emprestar fluidez à circulação, à vontade para meter pequenas acelerações, para combinar, cair mais fora/mais dentro. Na esquerda é, para mim, a nossa melhor solução (mais limitado) e na direita também, sendo que é aí que tem que jogar. Tem vindo a evoluir nos últimos meses e esperemos que assim continue porque qualidade sempre teve.
Zaidu - Sem comentários.
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Em suma, penso que muitos elementos-chave do plantel de posições-chave no modelo têm um encaixe pobre na ideia, que valorizo. Penso ser necessária alguma flexibilidade de Farioli em desenhar plano b e c (variabilidade/adaptabilidade ainda não me mostrou) para muitos momentos do jogo. Penso também serem necessários vários ajustes na próxima janela de transferências de maneira a compatibilizar melhor a matéria prima do plantel com a ideia que queremos propôr.
Mas por agora, altura de reflexão e de concentração porque vem aí o maior desafio da temporada. Temos que mostrar de que fibra somos feitos depois deste primeiro grande desaire e provar a nós mesmos frente ao maior adversário interno que somos a melhor equipa em Portugal, metendo novamente a diferença a 7 pontos.
Estou convencido de que, apesar de termos lacunas, também temos pontos fortes mais do que suficientes para vencer o jogo e se estamos onde estamos no topo da tabela hoje foi porque fomos os melhores até agora e isso é mérito de todos. Fazer do coletivo e da união a nossa maior força que há muito para ganhar esta temporada.