João Brandão, treinador do FC Porto B, concedeu uma extensa entrevista à edição deste domingo do jornal O Jogo, na qual disse não ter dúvidas de que a próxima temporada desportiva de 2026/27 vai ficar marcada pela 'explosão' em pleno de uma série de jogadores junto da formação principal azul e branca.
"Olho para todos da mesma forma. Todos têm planos de desenvolvimento. Provavelmente, poucos acreditavam que o Zé Pedro, quando chegou à equipa B, com a idade que tinha, iria ser jogador da equipa A. Foi fruto de a equipa técnica, na altura, acreditar no Zé Pedro e ele fazer um trabalho de muita crença. Não há idades para se transitar da equipa B para a A, há sim competência e potencial e é para isso que olhamos", começou por afirmar.
"Há vários fatores que contribuem para isso. O primeiro tem a ver com as convocatórias para o Mundial que estão agora a sair e só aí depois se abrem espaços de oportunidade. Depois é olhar para cada um deles e perceber a importância que pode ter o contexto de equipa A, o que cada um deles precisa nesta fase. Para alguns, é importante sentirem a exigência de equipa A, seja a nível físico, tático e a complexidade competitiva. Para outros, acreditamos que ainda não é essa a área", prosseguiu.
"São jogadores de grande talento e grande capacidade competitiva, apaixonados pelo jogo. Muitas vezes falamos desta nova geração como uma mais desligada das obrigações e tarefas profissionais, mas eles são completamente o oposto. São profissionais de excelência, jogadores de grande qualidade, com um comportamento social e emocional muito estável, muito regular e de grande ambição. Deixa-nos uma perspetiva positiva, sabendo que o mais difícil está para vir", completou, antes de abordar alguns nomes.
A "grande arma" de André Miranda
O primeiro dos nomes abordados por João Brandão foi o de André Miranda, cuja "grande arma", revela, "é o lado competitivo", assim como o facto de ser "extremamente apaixonado pelo jogo e viciado em ganhar". Agora que, acredita, "vai fazer com que suba degraus que lhe permitem chegar a esta fase num patamar diferente dos outros da idade dele".
"Há uma condição genética, aquela robustez física, a capacidade explosiva, a capacidade de bater e ser forte nos duelos. Cabe-nos ter um equilíbrio entre o que é necessário desenvolver e o que é fundamental potenciar. Tem de haver respeito pela originalidade do jogador. Muitas vezes, queixamo-nos de formatar jogadores na formação, mas temos uma responsabilidade grande para que isso não aconteça, procurando colmatar lacunas, mas olhando para o que o jogador tem de bom e potenciarmos, porque é isso que o vai diferenciar dos outros", apontou.
"Todos estamos apaixonados pelo Tiago Silva"
Já sobre Tiago Silva, o treinador elogiou a forma como "encontra o passe progressivo, a lateralidade do jogo e a precisão no passe, médio ou de longa distância", algo que lhe pode vir a ser útil junto de Francesco Farioli, uma vez que "são requisitos numa equipa que defronta constantemente blocos muito baixos".
"Todos estamos apaixonados pelo Tiago Silva [risos], com consciência de que ainda tem muitas coisas para desenvolver e o próprio Tiago tem noção disso. É um bom exemplo do que foi monitorizar e acompanhar o desenvolvimento individual. Temos monitores para diferentes jogadores, com a responsabilidade de fazer o acompanhamento semanal do desempenho em jogo, mas também em treino, seja a nível dos dados, ou imagens de treino e jogo", referiu.
Bernardo Lima é "muito imprevisível"
João Brandão virou, de seguida, baterias para Bernardo Lima, cuja "polivalência posicional e o raio de ação" fazem com que os adversários não consigam "fechar um espaço para ele". Além disso, é "importante na construção, percebe muito bem os momentos de baixar, de ir ao corredor para criar superioridades que permitam à equipa progredir".
"Também tem chegada à finalização, tem golo e uma capacidade de recuperar defensivamente e repor a posição após a perda de bola que leva a que olhemos para ele com um leque muito alargado de possibilidades. Como ele cumpre 12 km por jogo, dá esta comparação com os jogadores que cumprem as mesmas métricas na equipa A. O Bernardo tem dimensão física e capacidade de entender os espaços, fazendo dele um jogador muito imprevisível. É desafiante limar os momentos em que o Bernardo é fundamental", analisou.
Mateus Mide "valoriza o hoje, e isso é fundamental"
Finalmente, o técnico debruçou-se sobre Mateus Mide e sobre a importância de o "tratar" como este trata os restantes, isto é "sempre com um sorriso e disposição muito grande para o trabalho": "O que expressa no campo com bola é o Mateus fora dele. Bem-disposto e muito seguro. Essa segurança permite-lhe olhar para o dia a dia de uma forma tranquila, mas muito séria".
"Não tem pressa do que vai acontecer amanhã, valoriza o hoje e isso é fundamental. Estes jovens fecharam agora uma época de excelência e eu dizia-lhes, há poucos dias, que provavelmente não vão ter outra assim, campeões do Mundo, uma etapa de excelência na equipa B, campeões de sub-19 e alguns ainda se estrearam na equipa A. O mais difícil ainda está para vir. Tornar a expectativa e passá-la para realidade é obrigação de todos, muitas vezes sendo um filtro do ruído e da pressa", concluiu.