O que assistimos hoje no relvado do Estádio da Luz não foi apenas mais um clássico do futebol português. Foi o retrato cristalino de duas realidades em colisão frontal: a serenidade de quem lidera com distinção e o desespero ruidoso de quem se vê, dia após dia, implacavelmente ultrapassado pelo tempo.
O FC Porto apresentou-se na Luz com a autoridade de quem é o incontestável líder do campeonato. Viemos para ditar o jogo, orientados pela clareza de ideias do nosso treinador, provando que o nosso futebol tem um rumo tático assente no futuro.
Do outro lado, deparámo-nos com um Benfica reduzido a um bloco ansioso e um José Mourinho que se tornou, hoje, a sombra trágica daquilo que outrora representou.
Festejar um empate a 2-2, arrancado a ferros aos 88 minutos por Leandro Barreiro no próprio estádio, deveria ser um momento de profunda reflexão desportiva para um candidato ao título.
Porém, em vez de dignidade, o que recebemos do banco encarnado? O espetáculo decadente a que já nos habituou.
Quando o nosso jogador Pepê foi atingido por um objeto vindo da bancada e o banco do FC Porto exigiu o que é justo, Mourinho respondeu com o caos. Um pontapé numa garrafa contra o nosso banco, confrontos desnecessários e, inevitavelmente, a merecida expulsão pelas mãos de João Pinheiro já nos descontos.
Este cartão vermelho não é apenas um detalhe disciplinar, é a metáfora perfeita de um treinador que perdeu o controlo emocional porque perdeu, há muito, a capacidade de dominar o jogo no plano tático.
Em janeiro, no Dragão, a história já tinha ficado escrita quando os eliminámos da Taça de Portugal.
Mourinho falha sucessivamente nos jogos grandes porque as suas ideias cristalizaram. O futebol moderno já não se intimida com conferências de imprensa teatrais, nem o talento se esconde atrás de garrafas pontapeadas em fúria.
Nós, pelo contrário, somos feitos de uma estirpe diferente.
E é nestes momentos de batalha, quando o adversário tenta nivelar o jogo pela lama e pelo ruído, que a memória dos nossos maiores nos eleva.
É impossível não sentir um arrepio na alma ao lembrar o nosso saudoso e eterno Capitão, o grande "Bicho". Como o nosso Jorge Costa escreveu a André Villas-Boas pouco antes de nos deixar tragicamente: "André, quero que saibas que estarei sempre ao teu lado, pelo nosso FC Porto."
O Jorge esteve hoje na Luz. Esteve ao lado de cada jogador que suou a camisola e de cada adepto que se fez ouvir nas bancadas adversárias.
É este o peso da nossa herança.
Nós lutamos pelos que cá estão e honramos os que nos guiam lá de cima.
A exigência do FC Porto não se compadece com meias vitórias. Nós não celebramos empates arrancados no desespero.
Nós alimentamo-nos de vitórias, de mística e de conquistas inegáveis.