Não tenho qualquer expetativa em relação ao Veron. Com a franqueza tranquila de quem já viu alguns balneários e carreiras nascerem e morrerem, não tenho, neste momento, qualquer expectativa em relação ao Gabriel Veron. E digo isto sem azedume, sem ressentimento e sem vontade de estar certo à força. Digo-o porque o futebol ensina-nos, com o tempo, a separar potencial de realidade.
E atenção, fui dos que mais elogiou esta contratação quando ela aconteceu. O Veron era, naquele momento, um miúdo cheio de talento, estilo, capacidade de desequilíbrio e com um perfil que podia perfeitamente render na Europa. Era um jogador apreciado por um treinador exigente como o Abel, um jogador que, sem o ruído extra-campo, custaria facilmente o dobro do valor que o FC Porto pagou. O risco estava identificado, mas havia a convicção de que um clube estruturado, exigente e com cultura competitiva poderia ajudar a enquadrar o jogador e fazê-lo crescer.
O problema é que isso nunca chegou a acontecer verdadeiramente. O Veron nunca conseguiu libertar-se por completo dos excessos. Houve atitudes irrefletidas, desconexão progressiva do trabalho diário e, como acontece sempre nestes casos, a quebra não foi apenas mental, os índices físicos ressentiram-se, a consistência desapareceu e a evolução estagnou. No futebol de alto rendimento, ninguém espera por ninguém eternamente.
O empréstimo ao Cruzeiro foi já um sinal de tentativa de salvamento. Mesmo aí, quando se esperava uma reação, surgiram justificações pouco credíveis, o jogador chegou ao ponto de tentar explicar a fraca condição física com uma suposta disformidade muscular atribuída ao departamento médico do Porto. Quem conhece minimamente a forma como o clube trabalha percebeu de imediato que o problema não estava fora, estava dentro do jogador. E mesmo tendo tido alguma sequência, o padrão repetiu-se, instabilidade, extra-campo, uma oportunidade perdida.
O período seguinte no Santos acabou por ser quase o pior cenário possível. Um clube em ruína institucional, sem estrutura, sem estabilidade, a viver de decisões avulsas e urgências constantes. Para um jogador já fragilizado emocionalmente, foi gasolina para o incêndio. O Veron afundou-se ainda mais, ao ponto de deixar quase de ser visto como futebolista. Houve conflitos, episódios graves, situações que nem todas vieram a público, e o próprio agente chegou a dizer algo que diz tudo: “o Veron estar vivo é um milagre”. Quando se chega a este ponto, o futebol passa a ser secundário.
O empréstimo ao Juventude surgiu já não como uma aposta desportiva, mas como uma tentativa de reabilitação humana e profissional. E aí, justiça seja feita, houve trabalho sério. Trabalho físico, trabalho pessoal, acompanhamento. O próprio agente pediu ajuda a pessoas (até o João Paulo Sampaio, coordenador de base do Palmeiras interveio junto do jogador) que conheciam bem o jogador desde cedo, para lhe falarem, para o tentarem recentrar, para lhe explicarem que antes de pensar em carreira, dinheiro ou projeção, precisava de equilíbrio. Precisava de perceber que ainda estava ali, que ainda tinha uma oportunidade.
Não foi uma época brilhante, nem tinha de o ser. Mas, pelo menos, o extra-campo deixou de ser o tema central. O Veron conseguiu concentrar-se em jogar futebol, conseguiu cortar com alguns comportamentos, conseguiu, sobretudo, estabilizar-se. E isso, depois do que passou, já não é pouco.
Quando o agente publicamente pede numa intervista realizada num canal de YouTube, ao FC Porto que não desista do jogador, fá-lo com um argumento simples e humano, o Veron tem talento, tem capacidade, mas depois de tudo o que viveu, a prioridade é a felicidade de ainda estar vivo. Só depois vem o resto.
É neste contexto que surge agora o empréstimo ao Nacional. Um contexto novo, longe do ruído, com um treinador que trabalha com seriedade e que não vai tratar o jogador como estrela, mas também não o vai esmagar. Parece-me uma última oportunidade bem pensada, acompanhada de perto, sem ilusões, sem promessas fáceis.
Se vai resultar? Não sei. E é precisamente por isso que digo que não tenho expectativas. O futebol ensinou-me que há jogadores que não falham por falta de talento, mas por não conseguirem ser atletas de alta competição. Mas também ensinou que, de vez em quando, alguém encontra equilíbrio tarde.
O FC Porto está a fazer o que deve, não desistir cegamente, mas também não acreditar cegamente. Está a dar uma oportunidade num contexto controlado, com proximidade, com acompanhamento, para ver se, depois de tudo, o Veron consegue finalmente ser aquilo que o seu talento prometeu.
Se conseguir, ótimo. Será mérito dele.
Se não conseguir, a resposta já a conhecemos.