Depende.
Mais do que esquerda ou direita a questão aqui é de humanismo.
"Porque tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era estrangeiro e acolhestes-me; estava nu e vestistes-me; adoeci e visitastes-me; estive na prisão e fostes ter comigo." não é propriamente uma mensagem política.
Quando pago os meus impostos e contribuições para a Segurança Social, não me importo que uma parte desse dinheiro seja canalizada para apoiar os mais desprotegidos através do Estado Social. Prefiro isso a comprar quilos de arroz no supermercado ao preço de venda ao público, aumentando o lucro das grandes empresas de distribuição, para depois os colocar numa caixa que ficará armazenada até ser entregue como ato de caridade. Um por cento do orçamento da segurança social é gasto na RSI. É essa a contribuição de cada um de nós. Num salário bruto de 2000 euros, corresponde a 2 euros por mês.
O RSI garante o mínimo indispensável para que essas pessoas possam sobreviver. Dá para comida e pouco mais. A vida de quem depende deste apoio não é glamorosa, não é confortável e está longe de qualquer ideia de privilégio. Pessoalmente, preferia cortar os pulsos a passar a vida inteira na esplanada dependente de um apoio mínimo para sobreviver.
Basta olhar para muitos bairros mais carenciados para perceber isso. Uma parte significativa destas pessoas acaba por morrer relativamente cedo, depois de décadas marcadas por má alimentação, habitação degradada e estilos de vida pouco saudáveis. Há muito pouca gente acima dos 60 anos. Tiras-lhe os 150 paus por mês e a situação ainda vai piorar.
O RSI existe para evitar que estas pessoas caiam na indigência absoluta. Haverá abusos? Claro que sim. Mas se, em cerca de 15 anos, o número de beneficiários passou de cerca de 500 mil para 170 mil, isso sugere que os mecanismos de controlo estão a funcionar e os abusos não estarão propriamente a aumentar. E, sinceramente, não me parece que a pobreza tenha diminuído na mesma proporção.
Outra questão é o tipo de apoio social que deve acompanhar estas prestações. Acompanhamento de proximidade, formação, integração profissional e percursos de recuperação. Idealmente, todos devemos poder contribuir de alguma forma para a sociedade, e o objetivo deve ser sempre a autonomia das pessoas, não a dependência permanente. E fiscalização, claro, estamos todos de acordo nesse ponto.
Claro que isto tem uma dimensão algo utópica e muitos caem na indigência completa. Mas também é utópico acreditar que o problema se resolve apenas obrigando as pessoas a trabalhar ou assumindo que lhes falta um simples "abrir de olhos" e tirando-lhes o dinheiro eles vão acordar para a vida. Não vão. Vai ser a mesma merda de quem nasceu na pobreza endémica, exclusão e falta de oportunidades, carregando esse peso desde o berço até à idade adulta e que vai continuar na mesma, porque não foram educados nem tiveram formação para estudar, arranjar um emprego, gerir um orçamento, progredir na vida passo a passo. O RSI serve para ajudar literalmente os excluídos do sistema.
Se reparares bem, toda a gente concorda com praticamente tudo o que dizes.
O que alguns pedem, é que haja um controlo para evitar os ditos abusos. As medidas propostas podem ser uma ajuda nesse sentido. Não irá certamente resolver tudo, mas dará uma ajuda, é a minha convicção.
O que se dá pode ser pouco, mas é o suficiente para me fazer mal ao fígado, sentir que há xicos espertos que escolhem não trabalhar e o meu dinheiro sirva para lhe agradecer a opção.
Vou-te dar um exemplo de alguém que, infelizmente, até é meu familiar. Tem quase 50 anos neste momento. Não sei nada dele há uns bons 10 anos porque, para minha sanidade mental, cortei relações pela raíz.
- em média trabalha mês sim, mês não. Já deve ter experimentado uns 20 trabalhos diferentes, mas é corrido de todos. Não raras vezes, ele próprio deixa de aparecer porque sim.
- a primeira coisa que faz, assim que lhe pagam o ordenado, é comprar um telemóvel. Vende-o passadas 2 ou 3 semanas por 1/3 do valor, repetindo o processo na maioria dos ordenados.
- em tempos, soube por terceiros que andou largos dias a comer pão e beber água, nada mais. Mas nunca deixou de fumar.
- já correu N casas arrendadas, acaba sempre com ordem de despejo por falta de pagamento.
- não deve haver um vizinho nas redondezas da casa onde cresceu a quem não deva dinheiro. Casa essa onde ele podia ainda hoje viver tranquilamente, mas escolheu esgotar todas as hipóteses que lhe foram dadas, até chegar ao ponto de toda a gente lhe virar a cara.
- até onde sei nunca teve problemas com drogas e / ou álcool. Nem uma merda de uma triste justificação tem.
- tem uma irmã que teve a mesma educação, mesmos valores, que é uma das melhores pessoas que já conheci, constituiu família e está bem.
Este caso que eu conheço bem de perto, não é único. Não faltam casos idênticos pelo país fora. Mais dia menos dia o destino é ser sem abrigo, acabar a vida como um miserável. Se me perguntares se tenho pena, se sinto alguma empatia? Zero. Estimo mais é que se foda. Não quero nem 1cent dos meus impostos dirigidos a este tipo de gente.